DO PASSADO

L.P.Hartley escreveu: «O passado é um país estrangeiro. Lá, as coisas sucediam de maneira diferente.» Quem considera o passado o Paraíso Perdido, onde tudo era bom, deveria conhecer como, no Porto, as coisas aconteciam. Reproduzo o Decreto 6155, de 1919, através do qual o Ministro do Trabalho, José Domingues dos Santos, propunha soluções para uma realidade ultrajante. E, no intróito, traça o retrato da situação: «Considerando que a construção dos Bairros Sociais constitui necessidade urgente e representa uma medida que a crise económica, cada vez mais apavorante, exige que seja de imediata realização; (…) que essa construção vem atenuar a escassez de trabalho que entre nós se está acentuando, especialmente no Porto, onde se encontram mais de mil operários em “chômage”; (…) que grassam no país, designadamente no Porto, endemias que frequentemente assumem proporções de grande gravidade que, a não serem combatidas (…), com a promulgação de providências radicais se agravarão, pondo em sério risco a saúde pública, sobretudo a das classes laboriosas, menos defendidas, pelas suas precárias condições de vida, do contágio da doença (…)» E decretava a expropriação da Quinta da Granja, em Lordelo, para «entrar imediatamente na posse» da entidade responsável pela construção de Bairros Sociais.

Na anarquia da época, o governo cairia em 15.1.1920, sem adquirir a quinta e construir o que pretendia. Mas o diagnóstico ficara naquele Decreto comprovando que fizemos um longo exercício de desenvolvimento em democracia para nos libertarmos deste passado. Ainda não totalmente.

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~ por Helder Pacheco em 2020-04-28.