OUTRO CERCO?

O país, fora os que queriam praia, enfrenta a tragédia com maior categoria do que a de alguns senhores do mundo. E a cidade – longe do Algarve – correspondia ao confinamento. Civilizada e solidariamente. Apareceram dezenas de pessoas oferecendo-se para fazer as compras de vizinhos doentes, idosos ou inválidos. E também para passear animais, ajudar com crianças e serviços domésticos, desinfectar espaços comuns e elevadores, etc. A cadeia interactiva ganhava forma diariamente.

Até sucediam actos inesperados: uma rapariga guineense disse-me que ia para o trabalho e viu parar um automóvel a seu lado. A senhora que o conduzia perguntou-lhe se tinha desinfectante. Respondendo que não, recebeu um frasco de álcool e luvas, com a explicação: «Temos de ser uns para os outros.» E, tal como veio, a condutora desapareceu. Espantoso! Mas a fotografia deste «unidos venceremos» estragou-se. Inesperadamente.

Até recebi a seguinte mensagem de um leitor: «As coisas vão mal em Lisboa. E mais se nota quando “há um autarca lá nas províncias que teima em lembrar-se de fazer coisas antes da gente! Mas nem é de lá de baixo, nem pertence à “entourage”. São dois defeitos juntos”. A título informativo: os números estão mesmo baralhados. (…) Anunciaram que iriam fazer um programa de testes nos lares de Lisboa e Vale do Tejo. Só hoje? Que os façam e vão ver quem precisa de cordões sanitários.»

Apesar dos apelos à união, alguém «lá de baixo», antes de nos condenar ao cerco, devia contar até 50, como dizia meu pai – homem sábio -, que também acrescentava: quem não se sente não é filho de boa gente.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2020-04-28.

Uma resposta to “OUTRO CERCO?”

  1. […] O país, fora os que queriam praia, enfrenta a tragédia com maior categoria do que a de alguns senhores do mundo. E a cidade – longe do Algarve – correspondia ao confinamento. Civilizada e solidariamente. Apareceram dezenas de pessoas oferecendo-se para fazer as compras de vizinhos doentes, idosos ou inválidos. E também para passear animais, ajudar com crianças e serviços domésticos, desinfectar espaços comuns e elevadores, etc. A cadeia interactiva ganhava forma diariamente. → […]

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