RUA DAS FLORES

Fui há dias à Rua das Flores matar saudades. Saudades de mim, pois durante anos lá passava. Do Marquês, descia o Bonjardim, atravessava S. Bento e estava na minha rua favorita. Conhecia-a de ponta a ponta. Comprava polvo seco na mais bonita mercearia do Burgo e queijos na queijaria mais abaixo. Cumprimentava o Tony, amigo de infância, dono de ourivesaria centenária (na esquina dos Caldeireiros). E assinava o ponto no alfarrabista Chaminé da Mota. E da Casa Orchidea, de flores artificiais, quando fechou, ainda comprei a tabuleta.

Escrevi saudades de mim porque, da rua antiga, fora a lembrança de algum comércio e seus lojistas, nada me deixa saudoso. O estacionamento era anárquico, o trânsito agressivo, os pavimentos incómodos, o edifícado calamitoso, os moradores raros. Bela mas decadente, o que não acontece agora.

Agora (e desde a reabilitação do prédio da Papelaria Reis) tudo mudou. Além de rua pedonal, a maioria dos edifícios foi reconstruída. Milagrosamente: a Casa dos Maias (do brasão), a dos Sousas e Silva (dando para a Travessa do Ferraz), a esplendorosa dos Constantinos (até à Rua da Vitória) e outras. Tudo impecável e asseado. Para nosso usufruto abriu o MMIPO (mostrando os tesouros da Misericórdia) e muito comércio de outrora foi substituído por novo comércio – algum de qualidade.

Todavia, para a Rua das Flores atingir o patamar da reabilitação de sucesso, falta resolver um problema: mais do que recurso turístico, acrescentar-lhe moradores já que, à noite, nos andares de cima, reina a escuridão. E reabilitação sem gente dentro, é cosmética. Ou cenário.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2020-04-28.

 
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