VELHOS PROBLEMAS, NOVAS OPORTUNIDADES

Quem nasceu agora, acha que a morte do comércio tradicional é consequência do surto turístico que abala a cidade. Nada mais errado. O turismo, tal como as sequelas de uma requalificação urbana tardia e, em muitos aspectos, oportunista por visar, sobretudo, o lucro e a especulação, já apanhou, simplesmente, «os despojos do dia». Os restos, sobreviventes de um comércio vibrante e qualificado, à escala de uma cidade que, nos anos 80, chegara aos 330 000 habitantes.

O grande ataque contra a maioria das lojas de referência começou com a ocupação bancária da Baixa do Porto, que, qual tsunami, liquidou, por exemplo, quase todos os cafés. (Os que se salvaram, contam-se pelos dedos.) A seguir, quando o Burgo começou a tornar-se subúrbio de si próprio e a perder mais de 100 000 habitantes, fecharam a maior parte das livrarias e dezenas de estabelecimentos. Ruas inteiras perderam identidade. Meu pai, sócio de um local de referência, em Sampaio Bruno, travou contenda jurídica dura contra o Banco que o queria expulsar, como fez ao Hotel Aliança. Mas conseguiu vencer em tribunal. A “Arte Nova” fechou, mas ele saiu por cima. Muitos outros não resistiram. (A ironia é que, no local, acabou o Banco e regressou o hotel. Que tempos!) Vítimas do ataque bancário edifícios inteiros, de comércio, serviços e habitações, encerraram nos anos 60, 70 e 80. E o turismo não teve nada a ver com esse surto destruidor do espírito portuense. Talvez graças ao impulso que está a dar à cidade, a reboque dele, novas ideias e iniciativas de negócio e habitação, surjam por aí.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2020-04-28.

 
%d bloggers like this: