REGRESSAR À BAIXA

Nasci a dois passos da Praça e conservei-me fiel ao território da Baixa, que moldou a personalidade cívica da minha geração. Centrifugado para Ocidente, ali penei a prisão que me cerceou o ritual de ir à Baixa fazer compras. Em espécie de peregrinação às raízes e hábitos do burguês típico. Após dois meses de exílio lá voltei. Mas só não chorei porque, dizem, um homem não chora.

Encontrei a Baixa vazia. De lojas fechadas, sem a multidão falando uma babilónia linguística, sem engraxadores, cauteleiros, jazz-bandistas, esplanadas, cultivadores de selfies, guias turísticos e seus rebanhos, japoneses (chineses, coreanos – não sei distingui-los) aos magotes, bichas na Lello, tuk-tuks, animação, música e o entusiasmo de ver a cidade cheia de gente e tão bela. E, sem isso, a Baixa não é Baixa. É abstracção e equívoco, um pontapé no coração. Caiu-me a alma aos pés.

Mas apanhei-a e desinfectei-a para não ser contaminada pelos profetas do pânico e ainda menos pela doença viral chamada infomedia. E pensei: uma cidade a caminho da Ressurreição que, apesar da crise, não parou de se reabilitar, uma cidade a renascer da degradação e do aviltamento urbanos não pode parar. Impõe-se um novo desígnio, uma nova utopia: regressar à Baixa. Em força. Enquanto o aeroporto e o Cº Ferro não voltarem a inundar o Porto de visitantes, têm de ser os portuenses a apostar no Renascimento do coração do Burgo. E enquanto não ouvirmos a babel de línguas que enchia os dias, que se ouça, alto e bom som, o falar tripeiro. Utilizar a Baixa é um imperativo. A determinação vital para o nosso futuro.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2020-07-04.

 
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