TI AI PI

Quando o Porto ainda não era cosmopolita, falando línguas, viajando para o mundo, com prestígio em alta e hábitos culturais refinados, o nosso estrangeiro era ir de camioneta a Vigo, Santiago e, quando muito, à Corunha.

Com esta prática internacionalista, a minha primeira viagem a sério foi ir de avião para (e logo!) Belfast, para onde me recambiaram como bolseiro na NUU, em Coleraine, em plena guerra civil, longe das cidades onde o terrorismo era diário. Integraram-me num grupo de estudo com ingleses (que não ligavam aos irlandeses) e irlandeses católicos e protestantes (que não se falavam). Caí no meio daquele ambiente tenso e lá procurei sobreviver.

Os «bifes» preferiam falar comigo, mais do que com os irlandeses e um perguntou-me se sabia o significado da sigla «ti, ai, pi». Depois percebi que falava da TAP e acrescentou a explicação: «Take Another Plane» e ria de gozo. Em ímpeto patriótico, não gostei que mandasse «Apanhar outro avião» e repontei. Arrependo-me.

Depois da ausência de pudor, centralismo bacoco, falta de visão estratégica nacional, e, se calhar, incompetência demonstrada pelos que decidem contra os interesses do país que vai de Aveiro a Bragança, não temos, de facto, outra alternativa. Atrair e utilizar os serviços de companhias aéreas que não sofram de miopia dos olhos e do cérebro, eis o novo desígnio. E não falem em bandeira e patriotismo, porque tal gente não tem pátria nem conhece outra coisa que não seja o limite do Terreiro do Paço. Tomemos, pois, outro avião. Dos que nos querem servir e ajudar à retoma e ao renascimento da cidade e sua região.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2020-07-04.

 
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