DA TRADIÇÃO

Na rua mais pequena do Burgo, dedicada a Afonso Martins Alho (que, por ter comido as papas na cabeça dos camones, merecia melhor), havia uma tabuleta de vidro. Há muito desaparecida, apontava um dedo para o outro lado dizendo «Adega do Olho é ali». Mas o olho era desenhado e não escrito.

E o outro lado era um beco sombrio. Ao fundo estava a propriamente dita encimada por outra tabuleta, com o mesmo símbolo, informando: «A Adega do Olho é aqui». Uma parte da sua popularidade adveio-lhe desta iconografia que a transformou de antiga casa de pasto servindo aquela zona da Sé, em símbolo da tradição do agrado da classe média.

Na última fase, a Adega do Olho, sem o fulgor de outrora, representava o encanto nostálgico de certo Porto a despedir-se. A cozinha mantinha os pergaminhos de D. Alice: as tripas das 5.ªs feiras e o bacalhau à Braga eram imbatíveis. Mas havia outro património: o mestre de cerimónias Snr. Sousa, com o maior bigode da Invicta (fazia contas na toalha da mesa e filosofava). Quanto ao mais, o beco era um misto de degradação, estacionamento selvagem e decadência urbana. Até a velha tabuleta fora substituída por uma réplica.

Passei por lá há dias e vi tudo mudado. A arquitectura foi reabilitada, o espaço é atractiva esplanada e a adega da nossa saudade deu lugar a um restaurante de bom desenho e excelente cozinha. Moral da história: nem sempre a tradição qualifica a cidade. Coisa que o poeta Luis Cardoza y Aragón assim explica: «A tradição é uma fénix, não uma múmia. Há uma diferença entre viver na tradição e criar a tradição, porque ela é uma criação incessante.»

Helder Pacheco 2020

~ por Helder Pacheco em 2020-10-06.

 
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