Os “pequenos nadas” também podem ser um guia do Porto

Azulejos, portas ou batentes, floreiras, letreiros ou graffitis. Estão espalhados pelo Porto, mas passam muitas vezes despercebidos. Helder Pacheco reúne há quase 40 anos esses “pequenos nadas” que também “fazem uma cidade” e apresenta-os agora no livro Simplesmente Porto. Uma viagem pelos pormenores da urbe para a resgatar de visões estereotipadas.

Historiador Helder Pacheco já publicou mais de 40 livros sobre o Porto.

Foto Manuel Roberto

O curso era sobre aproveitamento dos recursos culturais do meio e Helder Pacheco deixou-se encantar com a ideia: de que forma as pequenas coisas do quotidiano integravam o território e o completavam? Estava em Newcastle, no início dos anos 80, e quando regressou ao Porto começou a reunir fotografias dessas “pequenas coisas” da sua cidade: portas, janelas, ferraduras, batentes, roupa a secar, floreiras. O arquivo cresceu e a vontade de o transformar num livro foi maturando: Simplesmente Porto (Edições Afrontamento) é essa viagem pelos pormenores onde pode descobrir-se uma outra cidade para lá dos monumentos, lugares icónicos e referências culturais.

A primeira inspiração para o projecto apareceu com Miguel Torga e “Bucólica”, o seu “poema visceral” cujo primeiro verso espelhava bem o pensamento de Helder Pacheco: “Ele escreveu ‘A vida é feita de nadas’. Comecei a associar esta frase às cidades, que também são feitas dessas pequenas coisas que nos passam despercebidas”, conta ao PÚBLICO para explicar o início da escrita do livro com mais de 200 páginas e largas dezenas de fotografias. “Há uma certa ideia de ver as cidades pelo património grandioso, as ruas, os monumentos, os jardins. Mas há também os pormenores”.

Helder Pacheco, autor de mais de 40 livros sobre o Porto, acredita que essas singularidades “fazem a diferença” numa cidade. “Em Dublin uma das imagens de marca é a cor das portas e a qualidade dos batentes”, exemplifica. Também o Porto está cheio dessas “imagens de marca”.

Os rostos das suas gentes (porque “o património mais importante das cidades são as pessoas”) e a harmonia dos animais domésticos na paisagem. A qualidade dos azulejos e das ferragens, a estreiteza das ruas na Sé, as pequenas escadarias semi-escondidas que ligam patamares, as varandas de ferro, os jardins caseiros às vezes compostos por apenas dois vasos, a enfeitada Rua das Aldas, as flores e luminárias postas na estátua do Padre Américo, o corrimão das escadas do Caminho Novo, o busto de Camões da Livraria Latina. Os graffitis humorísticos pintados nas paredes, as montras castiças, um letreiro de um grupo de taineiros da Ribeira chamado “os cheios de sede”. Mas também as “banalidades” e os “imponderáveis”: uma chuvada que forma uma sombra no chão, a silhueta de alguém a passar na ponte, um coração desenhado na lista de uma passadeira. “Tudo isto define a cidade.”

Livro tem dezenas de fotografias da cidade, uma viagem por pormenores onde pode encontrar-se o “espírito” do Porto, diz o historiador.

“Infelizmente alguns destes pormenores têm sido destruídos, como as portas do século XIX, os batentes e puxadores feitos nas metalúrgicas do Porto, as varandas. Na Rua da Constituição e em Faria Guimarães havia muito disso.” Nesse sentido, o livro do historiador nascido na Vitória é também um documento de memória, que tenta mesclar “coisas antigas com modernas” sem deixar-se enredar em saudosismos desnecessários, mas resgatando o essencial: “O passado passou, temos de ter sobre ele uma visão amável, mas crítica. Nem todo o passado é uma lição, mas temos de cultivar o que é uma lição.”

Depois de escrever à mão os vários textos que compõem o livro, quase sempre numa confeitaria da Foz à qual ganhou afecto, faltavam as imagens. “Sou um reaccionário tecnológico e por isso não me converti ao digital”, graceja o também docente que ainda hoje, aos 83 anos, dá aulas com recurso a diapositivos e vê o computador como um “microondas do conhecimento”. Como digitalizar o seu material – parte dele está no Arquivo Municipal do Porto, uns oito mil diapositivos guardados em casa – seria tarefa hercúlea e demasiado dispendiosa, recorreu a amigos fotógrafos, profissionais e amadores. “Expliquei-lhes o que queria e mandaram-me duas a três mil imagens. O meu problema foi ter excesso e não escassez.”

Olhar o detalhe foi uma aprendizagem contínua para Helder Pacheco, facilitada por uma formação na área de educação visual, pela velha dedicação à fotografia e pela paixão pelo cinema. Os “pequenos nadas” contribuem para “afirmar o espírito dos sítios” e reconhecê-los pode “oferecer o reencontro com um universo apaziguador da nossa visão sobrecarregada de estereótipos”, escreveu no livro. Se essa luta contra “a estandardização que uniformiza o quotidiano” for ganha, diz, a cidade globalizada pode salvar-se mais facilmente do risco de se tornar igual a outras.

Marina Correia Pinto, Público – 6 de Novembro 2020

~ por Helder Pacheco em 2020-11-09.

 
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