CAIR DA FOLHA

No início do século XX, a opinião geral era que o Bairro da Sé devia ser arrasado. Nos finais de trinta, o Estado Novo começou a concretizar a ideia, no Terreiro e na Avenida da Ponte. Depois desistiu mas a insalubridade e a pobreza mantiveram-se (a acção do CRUARB não chegaria para reabilitar este espaço emblemático).

Nos anos oitenta, o bairro falava uma linguagem própria, exultava com as vitórias do FCP, mantinha grupos e tipos humanos (a Troleybus, o Fiafa, o Excaler, o Toninho 21 e outros), cultivava tradições do Natal ao Entrudo, o comércio era castiço: o Sezé da Loja (Rua Escura), o tasco do Fernando (lá cantavam o fado), o talho do Lucílio (e a sua cabeça de carneiro), o Sardinha Assada, a Leitaria, o 5.ª Avenida (pronto-a-vestir da moda), a barbearia Bessa, na Bainharia, a Casa Osvaldo, em S. Sebastião. Todavia, a droga iniciava a devastação e a degradação era evidente (em Santana, os prédios apoiavam-se em tubos de ferro). Mas a Sé vivia e falava tripeiro.

Uma expressão antiga que lá ouvi foi «cair da folha» designando o Outono. Metáfora utilizada nos Estados Unidos como «fall», nesta altura do ano. O Outono portuense (a melhor época para ambientes românticos e lugares nostálgicos) é aguarela de entardeceres tranquilos, onde o tempo parece deslizar, mas nunca teve cultivadores na escrita e na música. Não por falta de motivos.

E depois aparece a Diana Krall a cantar o «Autumn in New York» e salivamos de inveja, quando até podia fazer-se uma campanha internacional soberba: «Venha visitar o Porto no cair da folha». Promovendo este Outono único, inesquecível.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2021-01-23.

 
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