DOS CHAFARIZES

Passei há dias na Rua da Fábrica e reparei num nova peça do mobiliário urbano que a Câmara (ou o SMAS?) anunciou ir espalhar pela cidade: fontanários para uso dos passantes. Especialmente em lugares de grande movimento de pessoas. Achei boa ideia, já que tal equipamento constituía enraizada tradição portuense.

Até podia estabelecer-se uma relação entre ele e a vizinhança, nos seguintes termos: «Diz-me onde existe um fontanário de ferro fundido e dir-te-ei onde habita o povo.» Ou seja: entre os finais do século XIX e o primeiro quartel do seguinte, a (chamada) Companhia das Águas instalou em muitos locais aqueles pequenos fontanários, com uma ou duas torneiras e, por debaixo, placas circulares onde os utilizadores pousavam os canecos com que se abasteciam de água potável. Localizavam-se, quase sempre, nas proximidades de bairros, ilhas, colónias e concentrações de habitação operária. Não havendo, para eles, abastecimento de água ao domicílio, os chafarizes desempenharam um papel essencial ao quotidiano de milhares de portuenses. Ainda bem que voltaram, com o modelo que, nalguns sítios, sobreviveu ao furor fonticida de os retirar (com as fontes) do espaço público.

Aliás, confesso – talvez erro meu: nunca morri de amores por um museu das fontes. Eram parte integrante das ruas e dos largos. Serviam e alindavam a cidade. Não são objectos arqueológicos e museológicos, mas instrumentos da qualidade do ambiente urbano. Se mandasse recolocava-as, nuns casos, nos lugares de onde foram subtraídas, noutros, em locais escolhidos para a requalificação. Nem mais, nem menos.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2021-01-23.

 
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