JÚLIO DINIS

Foi anunciado pelo Presidente da Câmara, que, no próximo ano, a Feira do Livro irá homenagear Júlio Dinis «cujo mérito carece de reconhecimento». Finalmente a cidade acordou para a importância deste escritor cuja obra impregnou a sociedade portuense para a qual constituía referência.

Confesso ter sempre à mão uma edição da “Morgadinha dos Canaviais”. Serve-me de antídoto para os momentos ditos de «stress» (na época do autor diziam «spleen» e depois neura). Nesses transes, releio partes daquele livro. Acalma-me como refúgio contra a melancolia.

Durante quase um século, foi lido por muitos, querido pelo povo, estudado cá dentro e lá fora, traduzido e editado em várias línguas. Aos poucos, o cabotinismo pedagógico, o provincianismo e a ignorância da pós-modernidade relegaram-no para o sótão das velharias. Era elementar, sem substância. Nada mais falso, basta ler Óscar Lopes para se perceber a dimensão de Júlio Dinis. Vendo bem, foi precursor do naturalismo na análise psicológica dos personagens e sua circunstância, convicto do liberalismo foi crítico arguto das suas perversões: nepotismo, caciquismo, corrupção. Sem truculência denunciou alguns males do tempo: beatice, superstição, preconceito e intolerância. Retratista admirável de tipos humanos, fez-nos participar do seu quotidiano na trama da narrativa.

E, sobretudo, para os tripeiros, encarna o sentido profundo de pertencer a uma cidade cujo retrato desenhou ao escrever que o seu «principal título de glória é o ter, em épocas em que a nobreza era tudo, previsto que podia e devia prescindir dela, para se engrandecer.»

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2021-01-23.

 
%d bloggers like this: