LEMBRANDO BAMBI

Regresso ao S. João (não o Santo mas o teatro, que comemora um século ao serviço do Burgo). Podem questionar: em tempos de «angústias e renúncias» tem sentido falar de teatros e coisas assim? E respondo: com Trumps e Bolsonaros seria pecado gastar caracteres (só tenho 1600), que os ature quem os elegeu. E também não me apetece falar dos que, enquanto o país se sacrifica, não prescindiam das férias no Algarve. Para esses o desprezo (e a polícia).

Falando do S. João (como sabem e sem menosprezo do magnífico trabalho nele realizado – que honra a cidade -, tenho pena de não ser o palácio da ópera, como a de Lyon, por exemplo. Aqui, estranhamente, uma região metropolitana com mais de um milhão e meio de pessoas, não o consegue manter), falando, pois, do S. João, regresso aos anos do leite e do mel da juventude. Aí pelos 17 anos, eu pertencia a uma seita (como se diz no Porto) onde imperava um valdevinos e boémio chamado Xá da Pérsia (viria a ser gestor brilhante no ensino público). Dela faziam parte gabirus como o Reisinho, o Pigmeu, o Tenente e outros. Gente de barba rija. Estroinas.

Pois na época em que o S. João se convertera – contra a sua história – ao cinema, aquela seita (tendencialmente culta) frequentava-o para ver filmes selectos (as coboiadas passavam noutros ecrãs). Certa ocasião, exibindo-se o incomparável Bambi, testemunhei, incrédulo, que, a meio da sessão, todos choravam copiosamente, rendidos à ternura do filme. Afinal, não eram tão duros quanto pareciam. É o mal dos portuenses: língua afiada e coração sentimental. Dessa fraqueza abusam os centralistas.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2021-01-23.

 
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