MESMO ASSIM

Não há como ter leitores com memória dos lugares, para estabelecer relações nas redes sociais de papel, tinta, palavras e amizade. E a crónica sobre a Rua das Flores funcionou como motivo de lembranças.

Um leitor interrogou-me acerca da origem do nome. Como não sei, utilizo fontes disponíveis. Em 1549, o Dr. João de Barros diz que a «Rua Nova de Santa Catarina das Flores se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins». Em 1789, o Pe. Rebelo da Costa escreveu que o «nome lhe proveio dos muitos jardins de flores que formoseavam o terreno por onde se dilata». E se, em questões de toponímia, as coisas simples são mais certas, fiquemos por aqui.

Leitor do JN é o quase centenário João Manuel (património da Humanidade) mantém-se activo, trazendo o sentimento de um território de afectos: «Simpática rua, escritório de “A Voz dos Ridículos”, em 68 anos de vida alegre e por vezes cheia de receios, com a PIDE e a Censura! Rua das Flores, onde organizei o Concurso das Varandas Floridas, pedindo ao Presidente da Câmara os vasos de barro para meterem as flores! Rua das Flores de tantos e tantos Amigos que faziam as tertúlias no Restaurante dos Linos. Comia-se, bebia-se e falava-se em surdina, quando a conversa era “Outra”! Vida de vidas que jamais posso esquecer!»

Cumprindo o confinamento que arranca as asas ao pássaro livre de sempre, o meu amigo não hesita em dizer que «Mesmo assim, fico contente e feliz.» Apesar do altíssimo risco do seu quotidiano, estes vencedores de várias guerras são exemplares perante os profetas da desgraça ou os baldistas estúpidos que por aí vegetam.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2021-01-23.

 
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