NATAL 2020

Eram os afazeres iniciais (arranjar um pinheiro, no Bolhão ou no Anjo, retirar as caixas dos brinquedos da dispensa e «fazer a árvore», com o cuidado de não partir brinquedos de família). As manigâncias de armar o Presépio (montando a cascata e trocando os santos de Junho pela Sagrada Família). As sonoridades enchendo a noite (os Janeireiros da Vitória, ou os sinos do trenó no céu da nossa imaginação). Os aromas imperceptíveis (o «cheirinho» do perfume que minha mãe recebia), ou envolventes (o odor a canela do fritar das rabanadas). Os sabores incomparáveis (dos doces de chila ou de bolina, sonhos e aletria). Os trabalhos pesados (de alongar a mesa, com duas tábuas, para que vitualhas, louças e humanos coubessem à vontade). Os empenhos para arranjar o melhor bacalhau (no Moisés Cardoso, em Mouzinho da Silveira).

E vinha a balbúrdia (de sentar à mesa e servir a bacalhoada). E os falares (ao mesmo tempo, cruzando palavras). E os jogos inocentes (o burro e, sobretudo, o rapa, a pinhões). E o deixar a mesa posta até de manhã («Esta noite ninguém pense / Em ficar à mesa a sós / Porque os nossos queridos mortos / Vêm sentar-se junto a nós.») E a pantominice de enganar catraios (para as senhoras, católicas, vinha o Menino Jesus deixar presentes no sapato do fogão, para os senhores, ateus, como meu pai, eram dados pelos adultos, para o avô monárquico cosmopolita, pelo Pai Natal). Enfim, nostalgias. De qualquer modo, se delas não conservarmos a lembrança, ténue que seja, o Natal perderá todo o sentido. E não podemos aceitar que uma qualquer pandemia nos roube o que ele representa.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2021-01-23.

 
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