POIS…

O Richard Zimler mandou-me uma encomenda que, além do gosto de a receber, me deixou preocupado. É que, no remetente, indicava a morada da capital. Caí das nuvens! Mais uma figura da vida portuense que se transfere para o poço sem fundo do centralismo que consome o país na «gelatina institucional» do Terreiro do Paço.

Escrevi ao Richard sobre a fuga para a capital e garantiu que era temporária e se mantinha fiel ao Burgo. Não acreditei e aconselhei-o a ler Camilo e “A Queda de um Anjo”, para saber o que acontece ao provinciano que se dissolve nos artifícios do lisboetismo.

Descobri na Revista “Branco e Negro”, de 1896, a “História de um Pretendente” (aos tachos da sede do Império). Assim: «1 chega de Celorico o Anastácio, sobrinho do Administrador. 2 Vai pela Arcada e engraxa-se… para engraxar. 3 Sua Ex.ª o Ministro dá-lhe esperanças. Há uma vaga… 4 Sua Ex.ª promete. No 1.º Diário [do governo] … 5 Sua Ex.ª continua prometendo. Dá quase a certeza… 6 Sua Ex.ª afiança: no 1.º Diário… 7 Sai o Diário: Amanuense. Sua Ex.ª é um homem de bem. Anastácio rejubila. 8 Rejubila, ama e galopina [angaria votos para eleições]. 9 Galopina, intriga, vota: 1.º oficial adido, com gratificações extraordinárias. 10 Sorri-lhe a sorte. Vota, discursa: Chefe de Repartição. 11 Discursa, escreve nas gazetas: Deputado. 12 Sindicaliza-se, monopoliza-se: Ministro. 13 Prédios, quintas, grã-cruzes, cartas de Conselho, dinheiro do Banco inglês. 14 Aposentação e 6 contos de réis por ano. 15 Estátua. Anastácio, o grande estadista.» 124 anos depois, a paródia permanece actual. Viva o centralismo.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2021-01-23.

 
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