Helder Pacheco 

“O património mais importante do Porto são os portuenses”, diz Helder Pacheco 

No seu mais recente livro, “Simplesmente, Porto”, Helder Pacheco, autor de mais de 50  publicações sobre o Porto, diz-nos que a cidade é feita “de pequenos nadas”. Da gente,  dos animais, das casas, das varandas, dos jardins, das ruas, da celebração, das pequenas coisas e coisas sem importância, do que nos faz rir e dos lugares invisíveis. No total, são  22 capítulos, escritos com a sabedoria de quem conhece o Porto melhor do que ninguém  e o amor que por ele foi nutrindo desde tenra idade. Tudo com um único objetivo:  proporcionar uma viagem pelos pormenores da urbe portuense e mostrar que há muito  mais para descobrir, além dos grandes monumentos pelos quais é internacionalmente  conhecida. 

“Nos países e nas cidades tudo depende das pessoas. O património mais importante do  Porto são os portuenses, depois vem o resto. Portanto, eu parti das pessoas, das suas  solidões, depois abordei os sítios onde param, os interiores, as portas, as janelas, as  casas, etc. E assim consegui decompor a cidade, desde o sentido principal, as gentes, até ao pormenor mais ínfimo, que pode ser a campainha ou o batente da porta”, adiantou o  célebre autor, historiador e docente portuense, em entrevista à revista VIVA!. 

Foto: Manuel Roberto 

Todos os textos, assegurou, foram escritos à mão, numa conhecida confeitaria da Foz,  com um ar “simpático e sossegado”, pela qual tem grande apreço, A Bolacheira. As  imagens foram, por sua vez, conseguidas através de amigos fotógrafos, a quem quis  também dar oportunidade de expor um pouco do seu “magnífico trabalho”. 

Helder Pacheco contou-nos tudo sobre este novo livro, revelou a forma como vê e pensa  o Porto atualmente e como acredita que esta poderá mudar depois de ultrapassado o  período pandémico. 

Como resume este novo livro, “Simplesmente Porto”, que acaba de lançar? 

Este livro é um projeto antigo, que me andava a dançar na cabeça. De vez em quando  vinha à superfície, depois era esquecido, depois vinha outra vez…. Isto já há alguns uns  anos. 

Sempre fui um grande admirador de Miguel Torga. A obra dele é para mim uma espécie de horizonte com que me identifico. E há um poema, que é a Bucólica, que começa por  um verso que eu considero muito inspirador – “a vida é feita de nadas” – e era isso que  me andava a bailar na cabeça já há uns tempos, porque se a vida é feita de nadas as  cidades também são feitas de nadas, de pequenas coisas, que, muitas vezes, passam  despercebidas. 

Nós estamos habituados a ver nas cidades as coisas grandiosas, os monumentos, os  espaços públicos, as estátuas, as multidões, as festas, os acontecimentos, a arquitetura  em geral, etc. E passamos à margem de pequenas coisas que fazem o encanto, o  pormenor relevante, o batente da porta, a flor que está pousada, o pássaro que pousa no  beiral, a camélia florida, as magnólias no Largo 1.º de dezembro… Portanto, milhões de  pequenas coisas que nos envolvem, que dão um conteúdo afetivo e estabelecem uma  espécie de relação com o território onde nos movemos. E eu pensava “vou partir à  descoberta das pequenas coisas da cidade, dos pormenores e publico um livro”. Assim  foi! 

Como foi o processo envolto deste livro? 

Primeiro, escrevi os textos, à mão, e eles foram sendo processados. Depois comecei a  pensar nas fotografias… E como eu tenho muitos amigos (o que seríamos nós sem os  amigos?) fotógrafos, quer profissionais como amadores, comecei a encomendar-lhes as  fotografias que precisava – gente, interiores de casas, portas, janelas… Durante muitos anos só utilizava fotografias minhas. Neste momento, raramente utilizo.  Primeiro, porque dou possibilidade a amigos meus fotógrafos, alguns magníficos, de  mostrarem o seu trabalho. É uma maneira de os projetar também. Segundo, porque  muitas das fotografias deles são melhores do que as minhas; e terceiro, porque eu só  trabalho com diapositivos, nunca aderi ao analógico em fotografia. 

Mas, continuo a fotografar o Porto, sobretudo as mudanças, o antigo, o moderno, etc., o  que era e como ficou depois da reabilitação.

Foi fácil a escolha do título? 

Normalmente ando a pensar, durante alguns dias, nos títulos dos livros. Muitas vezes  vou a guiar, lembro-me de um título e depois escrevo, outras vezes acordo à noite,  lembro-me de um título, levanto-me e escrevo. Escrevo entre 10 a 20 títulos e depois  peço à família e aos amigos para escolherem um. O mais votado, muitas vezes, não é  aquele que eu gosto mais, mas, se o público, que eles representam, escolhe, eu aceito. Sendo este um livro sobre a simplicidade da vida e a simplicidade das coisas, achei que o título que mais se adequava era um título deste género. É o mais vulgar, o mais banal  e o mais simples possível, “Simplesmente, Porto”. 

“A vida é feita de nadas”. Essa é a principal mensagem que o livro pretende  transmitir, adaptada ao contexto da cidade? 

Sim. O livro pretende ser um mergulho sobre as coisas simples que também fazem a  cidade. Pretende chamar a atenção para que o património não é só o Palácio da Bolsa. É  também o batente das portas da Rua das Flores, por exemplo. 

A escrita também deve conter alguma intenção social, no sentido de fazer passar para a  sociedade em que nos movemos determinado tipo de ideias, de conceitos e de  mensagens. Neste caso, o livro pretende chamar a atenção para a importância do  património simples, mas que também dá encanto a uma cidade como o Porto. 

“Considero-me em primeiro lugar portuense e em segundo lugar português” De todos os livros que já escreveu sobre o Porto, qual é o mais especial? 

Há amigos meus que consideram que o meu primeiro livro é o melhor de todo, o que é  um pouco melancólico. Pessoalmente, gosto muito do livro das tabernas, “Porto – Adegas, Tabernas e Casas de Pasto”, do “Livro do S.João” e gosto particularmente  deste último, porque talvez seja, até, aquele que diz mais do meu sentimento sobre a  cidade. Para mim, o Porto é muito isto, estes pequenos pormenores e estas descobertas  que podemos fazer. Qualquer um de nós, se tiver a visão apurada para isso ou a visão  educada, pode descobrir esta realidade palpável que são os pormenores da cidade.

Já está a pensar no próximo livro? 

Sim, aliás, já estou a trabalhar nele. Estou a preparar o terceiro volume das crónicas que  publico, semanalmente, no Jornal de Notícias. Tenho tido a preocupação de reunir todos  os artigos, porque a escrita na imprensa é uma escrita no vento, ou escrita na areia,  desaparece rapidamente. Um artigo que sai hoje num jornal, no dia seguinte já passou.  Já ninguém se lembra, muitas vezes, porque vêm outros factos novos. Enquanto o jornal  se desfaz, o livro fica, para sempre. E esta é uma forma de dar uma certa longevidade às  crónicas que fui escrevendo. 

Já tem definida uma data para o lançamento? 

Queria ver se o lançava lá para o final do ano. Depende também da pandemia. Vamos  ver! 

Qual é a sua principal fonte de inspiração quando escreve? 

A minha ignorância é cada vez mais altamente especializada. Eu só escrevo sobre o  Porto. E, portanto, a minha fonte de inspiração única e primordial é o Porto. 

Foto: Filipa Brito 

E como vê e pensa o Porto atualmente? 

Eu penso o Porto de uma maneira positiva e otimista. Se não fosse esta tragédia que nos  assaltou, o Porto estava a passar por uma fase brilhante da sua vida cívica, da sua vida  económica. Há 10 ou 15 anos, o Porto estava a cair de podre. Havia ruas onde já nem se  podia circular, quase, com as fachadas todas decrépitas. Mouzinho da Silveira era um  quadro de vergonha e de decrepitude. O Porto, literalmente, estava a desfazer-se. E com a reabilitação urbana que foi avançada, e que começou a dar frutos, neste momento o  Porto está irreconhecível em matéria de reabilitação. 

O grande desafio que se coloca ao Porto é, além de resolver o problema da habitação  degradada, uma política de habitação social contínua, para, de uma vez por todas, se  eliminar o problema das ilhas que estão em mau estado. Há ilhas boas e ilhas más. As  ilhas boas, tal como aconteceu na Bela Vista, devem ser reabilitadas com projetos de  arquitetura moderna, que mantenham a coesão social. As ilhas que não têm solução  devem ser demolidas e substituídas por habitação confortável para quem ainda vive em  más condições. 

Deve também haver uma política de habitação para a classe média. Quem pertence à  classe média deve ter capacidade de acesso à habitação. E quem não pertence à classe  média nem é milionário também deve ter a mesma possibilidade. 

Neste momento, o Porto atravessa uma crise, como todas as cidades do mundo, mas,  internacionalmente, mantém o seu prestígio. Continua a ser um destino de eleição, eleito  por organismos internacionais de turismo e, portanto, penso que, desde que a pandemia  passe, o Porto vai reconquistar o seu lugar. Tem uma estrutura montada invejável, com  unidades hoteleiras e uma oferta de qualidade, e obras em curso que o podem mudar  qualitativamente. É o caso do Terminal Intermodal em Campanhã, que vai mudar  completamente aquele espaço. Quando o projeto do Matadouro avançar, a parte oriental  do Porto vai levar um grande avanço, também do ponto de vista cultural. E, portanto,  em relação ao futuro do Porto sou otimista. 

De que forma é que acredita que esta pandemia poderá mudar a cidade? 

Nós andamos todos esfomeados de cidade. E, portanto, quando podermos andar à  vontade nela, se calhar vamos reaprender a vê-la e a usá-la. Eu, por exemplo, ando  absolutamente esfomeado de ir passear para a Baixa e para o Centro Histórico. Ando  absolutamente esfomeado de ir passear para Miragaia. Provavelmente a pandemia vai  trazer uma nova vontade de utilizar a cidade, quer o espaço urbano, os cafés, os bares,  os restaurantes, os cinemas, os teatros, etc. A fome vai ser tanta que as pessoas vão ter,  forçosamente, de regressar ao Porto. 

E as gentes do Porto? Sairão ainda mais resilientes depois de tudo isto? 

As gentes do Porto já aguentaram, no passado, situações terríveis. Aguentaram o Cerco  do Porto durante um ano, aguentaram a peste bubônica, nos finais do século XIX,  aguentaram a inquisição 300 anos, o salazarismo durante 48 e nunca se vergaram. O  Porto tem sido um resistente. Tem sido um resistente, sempre, ao Terreiro do Paço e à diminuição da sua imagem. Continua a manter a sua autoestima em alta. E, por isso, sou  otimista em relação ao Porto… e em relação ao país também! 

Foto: Manuel Roberto 

Este Porto, do qual é público que não presume sair, é efetivamente o seu porto de  abrigo? 

Porto de abrigo é o território onde eu me sinto feliz. Isto até dava um título de um  romance – “O território da minha felicidade”. 

Em que altura da sua vida é que começou a descobrir este grande amor ao Porto? 

Tive a sorte de ter um avô em estado de graça. A minha família viveu um drama um  pouco estranho. O meu pai era republicano assumido e o meu avô era um monárquico  assumido. Então eram permanentes as discussões em casa. Um dia o meu avô, pura e  simplesmente, fez as malas e foi-se embora a dizer que não havia espaço para os dois.  Então, ao sábado, o meu avô vinha buscar-me e íamos passear e o meu pai saía comigo  ao domingo. Com o meu pai, sendo ele um grande desportista da cidade, privilegiava o  desporto. Com o meu avô, era andar de elétrico e conhecer a cidade. Normalmente  íamos até à Foz, até Leça, até à Ponte da Pedra, etc. E, portanto, o meu avô ensinou-me  a descobrir a cidade, desde muito cedo e comecei a ficar muito afetivamente ligado a ela  (…) Tinha até um caderno onde comecei a escrever um livro de viagens sobre o passado  do Porto. Recordo-me que começava assim: “Chega o viajante ao alto de Santo Ovídio e  olha em frente e vê o anfiteatro da cidade”. Escrevi isto tinha 10 anos… 

Foto: Leonel de Castro 

Prefere este Porto ou o Porto de antigamente? 

Este, porque este tem o de antigamente. O de antigamente é que não tinha este. Porque o  de antigamente também significava 80% de analfabetos, a mais alta taxa de tuberculose  da Europa, cólera, condições de higiene absolutamente insuportáveis em muitos sítios  da cidade, precariedade no emprego, salários baixíssimos, etc. O Porto de antigamente  também era isto. Mas o Porto que devemos celebrar não é este, é o do liberalismo, que fez a Revolução Liberal, que fez o 31 de janeiro, que se bateu contra a inquisição e que  era um Porto culto. Era um Poro burguês e liberal, mas que ocultava o Porto de miséria  e de vergonha. O Porto atual herda o melhor do Porto antigo e ultrapassa e despreza o  pior do Porto antigo. 

(Foto de entrada: José Rui Correia)

~ por Helder Pacheco em 2021-04-24.

 
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