ABANEM ISSO

Nos tempos da Outra Senhora, em que se contavam anedotas a propósito de tudo e de nada (caíram em desuso por causa das redes sociais e dos telejornais), havia uma com efeitos garantidos.

Tinha a ver com a frequência dos cinemas que, no Burgo, era assim: queques, meninas bem, senhoras da alta e selectos ocupavam o 1.º Balcão (mais caro e com melhor visibilidade), o poviléu ia para a Plateia. No Olímpia, Batalha, Rivoli, Trindade, etc. Pois certo dia dois queques sentaram-se nos lugares mais cobiçados: a 1.ª fila do 1.º Balcão e ia o filme a meio quando um deles teve vontade irreprimível de verter águas. Contorcendo-se, segredou ao amigo que não aguentava mais e urinava ali mesmo. Ao que o outro respondeu: «Nem pensar, chegas-te à beira do balcão e faz para baixo. Eles estão habituados a que lhes mijem em cima.» Assim fez, mas, às tantas, ouviu-se alguém da plateia berrar: «Ó chefe, abane isso pra um lado e pró outro, pra molhar mais gente».

Esta história veio-me à ideia a propósito do concurso da RTP “Joker” que, por razões pessoais, vejo diariamente. É que, sobretudo após a elevação do prémio para 75 000 Euros, reparei que os concorrentes são, na maioria, de Lisboa e Vale do Tejo. Como o centralismo é um desígnio nacional, presumo que o conceito subjacente a tal selecção deve ser: vamos dar oportunidade de ganhar umas massas a gente daqui e os provincianos que chuchem no dedo.

De maneira que, perante a flagrante disparidade, é caso para dizer aos senhores da RTP: «Ó chefes, abanem isso para um lado e para o outro e dêem dinheiro a mais gente, de Norte a Sul do Império.».

Helder Pacheco 2021

~ por Helder Pacheco em 2021-04-24.

 
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