DA DIGNIDADE

Quero dizer: da dignidade do trabalho. Que nem sempre é respeitado e retribuído na justa medida da sua utilidade social. Sobretudo o trabalho indiferenciado, de pouca evidência. Muito dele braçal, exigindo esforço, incomodidade e risco. Nem celebrado ou reconhecido com a consideração das profissões vistas como «nobres».

Nos espaços públicos do Porto existem algumas homenagens aos que o jornalista Armando Gonçalves designou (em 1939) como «humildes que trabalham». Através da escultura foram consagrados o pedreiro, o ardina, a camponesa e, recentemente, a carquejeira. Convenhamos: é pouco povo. E a situação mais evidente respeita à classe operária: chegou a constituir um terço da população da cidade, que lhe deve muito da sua grandeza (a única representação encontra-se no baixo-relevo da fachada do Cinema Batalha, onde o operário é representado pela figura que empunha um martelo e um cadeado).

Da varanda de minha casa vejo quase diariamente um desses anónimos despercebidos. Que, sem darmos por isso, são indispensáveis. Sem eles, o quotidiano seria pior e a cidade insuportável. Falo do varredor que, Verão ou Inverno, faça chuva ou sol, imperturbável, limpa ruas e passeios, com um ferro retira detritos dos bueiros, de vassoura e pá em riste apanha o lixo. E, varredela feita, ala, empurrando o carro de mão que lhe serve de depósito.

Nem precisa que alguém o vigie ou controle. Persistente, cumpre o seu dever em benefício de todos e da decência do meu bairro. Até aos sábados e domingos anda por aí, incansável. Na sua solidão daqui o saúdo e admiro, trabalhando pelo Bem-Comum.

Helder Pacheco 2021

~ por Helder Pacheco em 2021-04-24.

 
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