DO FACHADISMO

Noticiou o JN que o ICOMOS, organismo da UNESCO, colocou o Centro Histórico do Porto na lista do património em perigo. Para isso identificou 14 obras em andamento ou realizadas, recomendando um projecto de intervenção no Morro da Sé. Continua a aludir ao «fachadismo» em processos como as Cardosas e pôs em causa o projecto da “Time Out” para a Estação de S. Bento.

A menos que o ICOMOS tenha representantes no Porto, é mais Terreiro do Paço aplicado ao Burgo. E, por tal motivo, enviesado. O «fachadismo» das Cardosas é argumento que, sem querer, diz a verdade: quem conhecia o Palácio das Cardosas sabia que só tinha fachada. O resto, há muito fora alterado. Quanto à Estação de S. Bento, também só tem fachada: fantástico hall e pouco mais nos corpos laterais. Até ao túnel, são armazéns de mercadorias, sem qualquer valor. S. Bento nunca foi completada, por falta de recursos. Começa esplendorosa e remata indigente. O projecto da “Time Out” será a oportunidade de valorizar um espaço sem categoria urbana. Quanto à Sé e à intervenção naquele bairro, dou a palavra ao meu amigo Joel Cleto, que sabe do que fala: «nos anos 80 e 90, como arqueólogo, em escavações na Viela do Anjo, na Bainharia ou na Rua Escura, ia assistindo literalmente ao desmoronar de uma cidade ao abandono. Quem hoje fala de gentrificação e fachadismo nem sabe que, àquele ritmo, nem fachadas teríamos por muito mais tempo. É claro que o Turismo (uma conquista civilizacional e democrática) fez muito, mesmo muito pela cidade. Estou farto desses “profetas” que nunca conheceram essa cidade de miséria e abandono.».

Helder Pacheco 2021

~ por Helder Pacheco em 2021-04-24.

 
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