DOS CONFINAMENTOS

Dizia não sei quem: «Quando a cultura desce, o animal sobe». Embora se aplique à situação actual, a realidade proporcionou o aparecimento de nova máxima: «Se queres saber o estado da Nação, confina a população».

De facto, o confinamento permite-nos radiografar a la-minuta a casa comum. E possuo observação privilegiada para um hipermercado, a esplanada de um restaurante, a marginal do Douro. Assim, no 1.º confinamento, o povo amedrontou-se. Tomou-o a sério e reagiu como na Guerra: bichas, sacos a abarrotar, açambarcamento nas despensas, toneladas de papel higiénico. Mantimentos para meio ano repostos diariamente.

No 2.º confinamento veio o Natal. Soft: almoçaradas e jantaradas em grupos (a boa comida é uma tentação), como se a pandemia tivesse voado para Marte. Azáfama consumística para compensar sacrifícios. E quais máscaras, quais carapuças, na beira-rio as multidões passeavam-se!

No 3.º confinamento, com a vaga a subir como as da Nazaré, as televisões continuaram a despejar o pânico e os comentários de centenas de «especialistas». Acabaram as jantaradas de convívio, não há bichas, o papel higiénico flui normalmente. Na beira-rio nota-se que seremos campeões olímpicos, tal a quantidade de corredores, as pessoas passeiam mais cães do que crianças, os casais acasalam. Nalguns sítios, os ratos desviam as vacinas. Enquanto isso os lixeiros trabalham de noite, o varredor varre de dia, o hipermercado mantém-se activo, o carteiro traz a correspondência. O saldo final vai em 15 600 mortos e esta é a ditosa Pátria minha amada. Mas como não tenho outra, por ela me fico.

Helder Pacheco 2021

~ por Helder Pacheco em 2021-04-24.

 
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