O ÂNSIAS DE CIDADE

Depois de um ano de prisão domiciliária, vendo multidões passeando na beira-rio como se não fosse nada, estou ougado. Ansioso de Porto. De tardes libertas para ir de autocarro à Baixa. Merendar na Ateneia, meia de leite e torrada untada com manteiga. Descer os Caldeireiros até à Rua das Flores e flanar até S. Domingos. Ver se a reabilitação avançou apesar do imprevisto.

Subir Belomonte para assistir ao crepúsculo mais belo, no Passeio das Virtudes. Tomar um chocolate quente com outra torrada a pingar manteiga, no café da Porta do Olival. Abaixo a ditadura do colesterol: venham francesinhas e, se possível, farturas – ando com saudades danadas delas. E venha gente, abraços e beijos (que mal fiz eu para viver enjaulado?).

Roubaram-me o Porto. Impediram-me de calcorrear os Arcos de Miragaia. Ainda não estreei as escadas rolantes do Monte dos Judeus e há que tempos não subo até à Bandeirinha para ver a paisagem pela milésima e não sei quantas vezes. Vivo esfomeado das tílias do Palácio e de percorrer Miguel Bombarda cheia de gente. De sentir uma cidade que só espera o renascimento. Esperançadamente. O renascimento urbano e o reencontro de multidões enchendo as ruas, a reconstruírem a vida que, à falsa fé, nos subtraíram.

Ando a jogar furiosamente no Euromilhões. Se me sair, compro a casa onde nasci, na Rua do Correio, em mau estado, mando-a reabilitar e mudo-me para lá. Em espécie de retorno às origens, viver na Baixa seria usufruir das ruas andando a pé, e, com tudo a menos de 15 minutos da residência, como defendem os futurologistas pós-covid, reencontrar o Porto.

Helder Pacheco 2021

~ por Helder Pacheco em 2021-04-24.

 
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