OLHANDO O CÉU

Por acaso, habito um prédio situado sob a rota dos aviões que demandam o aeroporto do Porto (a pista ficará numa linha recta na direcção da minha casa). Durante anos, ver passar aviões teve pouca relevância. Era um de vez em quando (vindos do Sul, os do Norte não os vejo).

Mas sucederam acontecimentos tão milagrosos que pareceram intercessões dos padroeiros S. Pantaleão e N.ª S.ª de Vandoma. O primeiro foi o Terreiro do Paço, em momento de distracção, ter avançado com a renovação do aeroporto, transformando-o à altura das necessidades do Norte. O segundo, quando a cidade parecia um espectro, foi ter avançado a sua reabilitação que a retirou da ruína. O terceiro foi terem inventado os voos low-coast e a Rayanair descobrir o filão que a região representava. E, finalmente, com o prestígio e atractividade internacionais alcançados, o turismo converteu o Porto num destino de excelência.

E ao lá vem um sucedeu um corrupio de aviões a passarem. No último ano de vida sorridente, emprego e ruas cheias, aos fins-de-semana, a certas horas, cheguei a contar um avião por minuto. Atrás uns dos outros!

Com a maldição vírica tudo mudou. Os aviões foram rareando. Na 1.ª, 2.ª e 3.ª vagas quase nem vê-los. Um, manhã cedo, outro ao cair da tarde. Uma tristeza. Com os tripeiros em prisão domiciliária e sem visitantes tudo mudou. Na sexta-feira, tive um sobressalto: ao meio da tarde passou um avião, depois um segundo e, inesperadamente, começaram a passar cadenciados. Nem saí da varanda e fui contando: cheguei aos doze. Só faltou deitar foguetes. Será o princípio do fim deste pesadelo?

Helder Pacheco 2021

~ por Helder Pacheco em 2021-04-24.

Uma resposta to “OLHANDO O CÉU”

  1. […] Por acaso, habito um prédio situado sob a rota dos aviões que demandam o aeroporto do Porto (a pista ficará numa linha recta na direcção da minha casa). Durante anos, ver passar aviões teve pouca relevância. Era um de vez em quando (vindos do Sul, os do Norte não os vejo). → […]

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