UM RETRATO

Em 1984, vivi um episódio que, em livro, descrevi assim: «(…) Ao pé do nicho onde está a Santa Catarina (…) ouvi um pst envergonhado de voz de mulher “pst, ó sinhor, tire-me um retrato com os meus filhos. Ninguém nos tira um retrato pró jornal” Era a mulher das violetas, de olhos novos na face gasta, com a vida nas canseiras da dignidade, mais os filhos com os mesmos olhos novos, sim, ainda de olhares para crescer. São os filhos caras-lindas. Depois a mãe passou-lhes para as mãos uns ramos de violetas “pra ficarem milhor”. Fotografei-os. A mãe agradeceu e foram embora. Os caras-lindas olharam para trás e um deles acenou. Nunca mais os vi. Não foram pró jornal mas aqui ficaram num retrato com história breve. Para sempre. Peço a quem me ler, o favor de lhes mostrar esta página, se os encontrar nos meandros portuenses.»

Via Facebook recebi agora esta mensagem: «Ao fim de 37 anos de busca finalmente encontrei a foto que me marcou um dia, no quotidiano da minha infância. (…) Resolvi escrever-lhe por vários motivos, o primeiro é que de facto não saiu nos jornais, conforme pensávamos, segundo não foi ninguém que leu e nos fez chegar, foi a nossa pesquisa (minha e do meu irmão) que sempre ficamos com a ideia que um dia haveríamos de a encontrar. (…) A criança que lhe acenou fui eu, recordo ainda o gesto. Ainda não possuo o livro, estou à procura dele (…), tenho de preeencher esta nossa memória.»

Vendo bem, o mundo é mesmo pequeno. O Porto, disse João Chagas, não é uma cidade, é uma família. E recordando o filme de Etienne Chatiliez: “A Vida é um longo rio tranquilo”.

Helder Pacheco 2021

~ por Helder Pacheco em 2021-04-24.

 
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