“A única coisa que não conseguiram roubar ao Porto foi o FC Porto”

A conversa é sobre futebol, mas isso é só em teoria: falar com Helder Pacheco sobre o seu FC Porto é falar sobre o país – ou sobre a forma como ele o vê. “A única coisa que não conseguiram roubar ao Porto foi o Futebol Clube do Porto”, diz o autor de “Porto em Azul e Branco”, editado pela Afrontamento, que reúne 25 anos de escrita sobre o principal clube da cidade.

Helder Pacheco, autor de vários livros sobre a cidade, está de cama, com gripe, quando atende o telefone ao P24. “Durante a noite não sabia se era a gripe, se era o desgosto da derrota”, conta, ainda abalado com a primeira derrota do FCP esta época, este domingo.

É a bola, a “paixão portista”, que põe o investigador eufórico ou de cabeça perdida. “É a minha paixão afectiva, sentimental e um pouco irracional”, confessa. Curiosamente, não tem cartão de sócio: “Nunca fui muito de estar inscrito em qualquer coisa. Pago bilhete. Não vou [ao estádio] por obrigação, vou por devoção”.

Para além de textos, as 192 páginas de “Porto em Azul e Branco” reúnem várias fotografias que mostram a história do clube nos últimos 25 anos.
Para Helder Pacheco, “Porto e FC Porto confundem-se na cabeça de muita gente” porque “este é o país mais centralista da Europa”. Como “o Porto e o Norte não têm políticos de categoria suficiente” e várias grandes empresas saíram do Porto, “o FC Porto converteu-se numa espécie de bandeira política”, defende Helder Pacheco.
É isso que explica, no entender do historiador, cânticos como “Nós só queremos Lisboa a arder”,  uma “metáfora” para expressar uma revolta contra o “centralismo agressivo”.
O discurso anticentralista apoderou-se nos últimos anos dos textos de Helder Pacheco sobre o seu clube. Não foi sempre assim: nos primeiros anos, ia para o então Estádio das Antas “com um bloco de apontamentos”. “Acabava por ver pouco os jogos porque estava a anotar o que via e, sobretudo, o que ouvia”, recorda.

Nesse trabalho de campo, captou o “sentir do indivíduo comum”, mas também o do burguês que “ao fim-de-semana pintava a cara, metia uns chifres na cabeça” e ia ver o futebol. Para o pobre e para o rico, o futebol é uma hipótese de transcendência.

“O futebol é uma nova expressão da cultura popular”, teoriza, sobretudo “fora do campo”. Roupas, marchas e cânticos resultam “numa nova forma de Carnaval”.

“Porto em Azul e Branco” é também uma viagem pelo Porto, da Adega Portista à mercearia do “Zé da loja”, e uma oportunidade para conhecer figuras populares, como Manuel das Cabrinhas, Carlos Bessa e a cantadeira Maria dos Anjos.

Pedro Rios in porto24.pt


 
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