“Porto é vítima de conspiração secreta”

Helder Pacheco reúne em livro 25 anos de escritos sobre a sua cidade. Historiador atribui perda crescente de protagonismo económico aos “erros calamitosos de gestão” das últimas décadas e “às taras centralistas”

 

 JN 2008-11-11

SÉRGIO ALMEIDA

Chama-se “Ver o Porto” a mais recente declaração de amor de Helder Pacheco à sua cidade. Editado pela Afrontamento, o álbum passa em revista alguns dos seus escritos mais emblemáticos, nos quais a paixão não tolhe o discernimento.

“A minha escrita é um combate pela cidade e pelos valores em que acredito”, afiança o historiador e escritor.

No prefácio, Miguel Veiga diz que este é quase um livro de memórias. Está de acordo?

Para mim, o Porto é um caso de afecto. Ao recordar 25 anos de escritos sobre a cidade, faço um auto-retrato da minha ligação com o Porto.

Mais do que um historiador, vê-se como um buscador, misto de poeta, jornalista e investigador?

Ando sempre à cata, procurando o lado oculto da realidade para encontrar um pormenor inédito e significativo. Ainda agora descobri a existência de um clube na década de 50 chamado Estrelas Rutilantes Futebol Clube. Não há nenhum clube com um nome tão bonito. Se conseguir recuperar a memória disto, desafiando as pessoas a renovar essa tradição, estarei a cumprir o que me proponho.

Como foi o regresso a textos escritos há tanto tempo?

Tal como Jorge Luis Borges, tenho poucas ideias. E sobre o Porto também tenho apenas um punhado de ideias-base, a principal das quais talvez seja a profunda identidade, fornecida pelos seus habitantes. O que me interessa é representar através da escrita o espírito dos portuenses. A cidade tem sido extraordinariamente agredida de há largos anos a esta parte.

Onde situa o início do declínio?

Desde o início dos anos 60 que a cidade tem sido assolada por uma completa desarrumação urbana. O Porto tem sofrido o impacto de fenómenos que, sendo globais, se fizeram sentir a nível local, como é o caso da desindustrialização. Por erros calamitosos de gestão, houve uma desertificação. Parte da população foi centrifugada por acções que parecem deliberadas. Quando se determina, no Plano Director Municipal, que o centro da cidade deve ser ocupado com o sector terciário, é óbvio que se criam condições para afastar as pessoas. Há uma política desastrosa da habitação social, que tem sido um dos principais focos de problemas da cidade. Associada a isto, há ainda uma perda de intervenção política, porque o Estado é cada vez mais centralizante. O Porto sozinho não tem capacidade para desenvolver-se. Há um tratamento desigual, por parte do Estado, em relação às duas principais cidades.

Apesar da perda de influência do Porto, o bairrismo mantém-se.

Os centralistas e os totalitários das ideias insistem em associar o bairrismo ao provincianismo. O que temos a fazer em relação a essa gente que tenta dominar o país é internacionalizarmo-nos. Estou muito mais interessado em saber o que fazem os ingleses, franceses ou norte-americanos do que estar a par das taras centralistas. Assumo-me como bairrista, provinciano, parolo, etc.

Os portuenses não estarão demasiado obcecados com Lisboa?

Só estou obcecado com a estupidez que sai de lá, porque tem reflexos no resto do país. Gostava que aplicassem algumas dessas ideias que criam apenas em Lisboa. Só com uma cidade-estado, como o Porto em tempos quase foi, é que se evitaria isso.

A regionalização ajudaria a minorar estes problemas?

Sou um adepto firme de uma descentralização honesta. Acredito num valor emergente chamado Área Metropolitana do Porto. Isso é que precisávamos de potenciar devidamente, pois há pontos de interesse comum, como o Metro.

Sem entrar em teorias conspirativas, acredita que há interesse em que o Porto não se desenvolva?

Não tenho dúvidas nenhumas de que existe uma conspiração secreta contra o Porto, movida pelos interesses centralistas. Não digo que isso aconteça em todos os lisboetas, mas é o que se passa com uma certa classe política e vários interesses económicos.

Ainda há um Porto desconhecido para si?

O Porto físico já não tem muitos segredos para mim, é verdade, mas em compensação as pessoas são inesgotáveis. A memória e a sensibilidade das pessoas são uma fonte de surpresas permanentes.

Que recantos prefere?

Há muitos. A Baixa, claro. A minha vida decorre muito na zona ocidental da cidade, sobretudo na Foz, mas faço sempre questão de passar com regularidade pelo centro. É lá que ainda faço as compras.

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