A bela história do S. João no Porto

Durante 20 anos, Helder Pacheco, garimpeiro da memória popular tripeira, revolveu arquivos, desbravou milhares de notícias, submeteu ao crivo a preciosidade de muito testemunho. Resultado a história do S. João do Porto está finalmente compilada em dois tomos de 900 páginas. O segundo, igualmente das Edições Afrontamento, Porto, O Livro de S. João, 518 páginas, foi lançado este mês.

Trata-se, também, de uma reflexão sobre o burgo e as suas gentes que têm dado espontâneo esplendor à celebração solsticial. Antigo culto solar, o S. João do Porto, conta o investigador e escritor, já vem mencionado por Fernão Lopes na sua Crónica de D. João I.

O povo pandegueiro, a catarse, o espírito de vizinhança, o fabuloso e enternecedor pulsar dos bairros, eis a seiva de tanta fraternidade e brejeirice, eis a consagração da tolerância em derredor do ascetismo do Santo Precursor.

Nesta fascinante e ilustrada viagem aos meandros da borga discorrem, bem documentados, os arraiais, as recordações do fogo-de- -artifício lançado na Cova da Onça, Serra do Pilar, alcova de outras fogosidades. O desossar do anho assado, o café e o pão quente barrado de manteiga, pela madrugada.

Palácio de Cristal, Baixa portuense. Sim, Baixa portuense. E Fontainhas e Lapa e Cedofeita e Bonfim. Mágicos itinerários do resfolegar da alegria durante os instantes indizíveis, místicos e báquicos.Tempo permissivo com multidões de rapioqueiros despojados de preconceitos. Povo amorável.

Os bairros que armavam a cascata – presépio de Junho – e animavam o bailarico, ah, o bairro que dava cor e descantes à rusga, lançava o balão, saltava a fogueira,depois, anos 50, assava sardinha, sorvia caldo-verde, continuando a ameigar verde manjerico. Depois, a quadra de sete sílabas, em redondilha maior, paixões e malícias em rima e o povo, de natureza troveiro, abraçando, agora de veia telúrica, rosmaninho, erva-cidreira, cravos, alcachofra. E sempre o fálico alho-porro em riste até chegar a sublimação das orvalhadas.

Noite reinadia, sensual, de esconjuro e de juras de amor. Cidade transfigurada desforrando-se do cinzentismo dos quotidianos. Helder Pacheco mergulha no miolo de tanta folestria e lamenta os últimos 50 anos de desurbanização, desindustrialização, descomercialização. Em suma, o despovoamento do Porto, a carcaça dos edifícios.

S. João afugentado do centro. S. João em declínio, porque decapitado de muita alma. A sistemática destruição do tecido físico e humano ecoando como requiem à tradição popular. Ora, não havendo festa sem gente, alguns sonhos foram a deitar, enquanto iam entronizando um S. João institucionalizado, cosmetizado. S. João a perder identidade e afectos e não por caprichismo da malfadada Salomé.

Delírios feitos a martelo, melhor, a martelinho de plástico (introduzido em 1965-66) e reinventados na nostalgia de quem lhes deu o seu amor numa longínqua e bela noite de Verão sob a copa de um jacarandá em flor.

Alfredo Mendes, in DN 26 Junho 2005

Anúncios

 
%d bloggers like this: