O historiador Helder Pacheco

Cada cidade é um mundoà parte, território ancorado a sonhos e rostos imemoriais que no refazer dos tempos se afirma coma densa humanidade de um espaço à medida do Homem. Cada cidade é um repositório de gente singular, na multiplicidade das suas capacidades, um diálogo permanente entre as mãos e o espírito, que fazedores modestos ou artistas consagrados inscrevem na invenção dos dias. Cada cidade tem as suas glórias, heroísmos épicos ou à escala individual, sagas de lutas pela liberdade, como pelo pão de cada dia. Cada cidade tem os seus criadores, aqueles que as escrevem e sonham, com a sua poética muito particular, como ensinou Pierre Sansot. Por isso, as cidades são também feitas de palavras e de versos, de imagens que as prolongam no tempo, as belas fotografias que fixam rostos e acontecimentos e reforçam sentimentos de pertença. Escrevo tudo isto e tenho, à minha frente, o belíssimo livro (mais um) de Helder Pacheco Porto na passagem do tempo, publicado pelas Edições Afrontamento. Helder Pacheco tem longa bibliografia sobre o Porto. E o seu discurso sobre a cidade, como diria Daniel Filipe, reflecte sempre olhares de afecto sobre uma memória  transversal  à sociedade, às pequenas e grandes coisas, numa escala de humanidade onde entrampor igual pessoas, lugares, bairros, colectividades, tradições. É a alma da cidade, nas suas identidades profundas, que respirem sempre os livros do historiador  Helder Pacheco. Viagens com cultura dentro, com ecos de poesia (lá está muito assinalado o afecto do autor ao poeta Albano Martins) ou referências literárias que nos ajudam – ou não fosse o Porto a cidade de Raul Brandão – a perceber a topografia física e cultural dos lugares, das ruas, dos instantes de uma terra com tão riqueza de vivências. Discretamente, envolvido nos seus trabalhos de investigação, levantando a voz e a palavra quando é preciso, para defender o Património, Helder Pacheco, desvendando a “alma” da cidade, valorizando detalhes que sinalizam a memória urbana, “lavra em terreno que nos desafia o descobrimento desta cidade”. Ensina a olhar com olhos de ver. E a pensar. Como ele diz, “a resposta a questões como: o que é a cidade, que tradições criou, manteve ou deixou extinguir , que novas manifestações foi capaz de inventar, é, talvez, condição essencial para a apreensão da própria personalidade do ambiente urbano”. Pensemos nisto à escala da cidade de cada um~.

Fernando Paulouro Neves, in Jornal do Fundão 24-12-2009 


 
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