Tradição das cascatas marca o São João no Porto

A tradição das cascatas de S. João já é antiga e continua a fazer parte das comemorações da cidade. Este ano, vão 26 a concurso.

Ó meu S. João do Porto,
quando chegas está tudo morto pra nas fogueiras saltar!
Ai, meu S. João do Bolhão e Fontainhas,
das cascatas enfeitadinhas e dos balões pelo ar!…

Dois séculos depois, a tradição mantém-se. Apesar de existirem em menor número, as cascatas continuam a fazer parte das comemorações do S. João, no Porto, para além do indispensável alho-porro, o manjerico, o martelo e a sardinha assada.

Este ano, são 26 as cascatas que entram no concurso organizado pela Câmara Municipal do Porto. A iniciativa é destinada a todos os moradores do concelho que se proponham a construir uma cascata em honra de S. João, tendo como motivo principal um passo da vida daquele santo popular. Os prémios vão dos 750 aos 1250 euros.

As casas típicas do Porto, a torre dos Clérigos, a Sé e a figura do S. João são elementos que aparecem em quase todas as cascatas, sem contar com as lendárias e caricatas figuras da leiteira que “mija no canado para acrescentar ao leite” e do “cagão” que, “coitado do homem, nunca consegue acabar de fazer as coisas. Todos os anos fica a meio”, brinca o historiador Júlio Couto.

Desde pequenos

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Cláudia Rocha tem apenas 14 anos, mas já faz cascatas desde os seis. “É uma tradição que vem de família”, diz. No ano passado, foi a vencedora do concurso organizado pela Câmara Municipal. O segredo poderá estar na originalidade: “Nós pensamos primeiro na estrutura fundamental, como a Sé, a Torre dos Clérigos e o S. João. Depois vamos inventando. É como se fosse uma aldeia. Tem que ter umas casinhas, algumas pedrinhas, terra…”, afirmou ao JPN.

Uma tradição com tendência a desaparecer

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Foi no século XIX que apareceram as primeiras cascatas no Porto. De acordo com o historiador da cidade do Porto, Hélder Pacheco, “o pai e a mãe das cascatas foram os presépios, que surgiram em Portugal nos finais do século XVIII”. “Antigamente”, explica o historiador, “pegava-se num presépio, substituia-se a sagrada família e os reis magos pelos santos populares e tínhamos uma cascata”.

Com o passar dos anos, o número de cascatas espalhadas pela cidade foi diminuindo. “Enquanto que o concurso dos presépios, que a Câmara organizou teve oitenta inscrições, o concurso das cascatas teve apenas 26. A minha grande dúvida é se no dia em que a Câmara deixar de patrocinar o concurso, não vai haver uma queda livre do interesse em fazer as cascatas”, alerta o historiador.

Hélder Pacheco justifica o número reduzido de cascatas que vão a concurso com a diminuição da população no centro da cidade. “Não pode haver festa, alegria ou cascata sem comunidade, sem gente. Com a centrifugação dos portuenses, as cascatas desaparecem. Sem gente não há nada”, afirmou.

Anabela Couto e Hugo Manuel Correia, JPN – Jornalismo Porto Net, 23-6-2005
Fotos: Liliana Rocha Dias
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