A par da esperança

No dia 21 de Março, assistimos atónitos, pela TV, à confirmação do desajustamento a que anos de políticas inconsequentes de (des)qualificação do Ensino conduziram o espaço de muitas escolas públicas. De facto, não em todas, nem sequer provavelmente na maioria, a nobre função e a dignidade do professor enquanto mestre têm vindo paulatinamente a ser desvalorizadas. A cena lamentável do incidente entre a docente e a aluna – com outros sinais, como a ausência de um valor chamado respeito, o desprezo pela exigência do rigor e o desvirtuamento do civismo – demonstra que a escola pública necessita de um urgente renascimento que a reajuste ao papel de motor essencial ao aprofundamento da res publica.

Mas mantenho a convicção de que existem dois países. Um, traído quotidianamente pelas perversões da democracia. Não é o meu país. Nem o dos que acreditam no valor da perseverança e da coragem cívica. Da determinação e da força de vontade. Da honradez e da firmeza de convicções. Do trabalho e da nobreza de ânimo. Da dedicação a causas justas. Da competência e da excelência. Um país simples, autêntico, coerente. Íntegro. Foi esse país que, no mesmo dia do descalabro visto pela Televisão, nos brindou, aos portuenses, com o concerto de Páscoa da Igreja da Lapa.

Desta vez, o cada vez mais exigente Coro da Sé Catedral – conjunto de setenta vontades e dedicações a um ideal chamado cultura, na sua mais digna dimensão -, e o Ensemble Orquestral do Porto, dirigido por Marc Tardue, tripeiro por adopção, com os solistas Jorge Vaz de Carvalho e Carla Caramujo interpretaram o exaltante “Requiem alemão”, de Johannes Brahms, com base nos textos da Sagrada Escritura.

Não tenho competência para ouvir um concerto e apontar notas falsas, entradas a destempo, anotar fífias, assinalar dissonâncias, criticar erros, etc., etc.. Deixo isso para quem não tem melhor para fazer. A mim, quando vou à Lapa, nestas noites fantásticas, interessa-me viver o êxtase de momentos sentidos como se estivesse fora do tempo. A sensação quase sublime da serenidade que a música assim interpretada nos concede. A emoção provocada tanto pelo sentimento das interpretações dos cantores como pelo pano de fundo do suporte orquestral. Repito, viver. Com a intensidade daquela sentença italiana do século XVIII «como se ora mesmo houvesse de morrer.»

Naquela noite incomparável, aqueles que, como eu, vão à Lapa de ouvidos bem atentos usufruíram do prazer único da experiência da música. De momentos únicos que a contingência da nossa passagem nos concede – se os soubermos encontrar. Da reconciliação com os dias de um país que, afinal, tem outra gente, outra nobreza. Gente capaz de nos proporcionar, através da execução do “Requiem alemão”, aquilo que Schumann definia como «as súmulas mais maravilhosas dos mistérios do mundo dos espíritos.»

Para não estragar a sensação do contentamento e pacificação daquela noite, só me pus a pensar em certas coisas depois do concerto terminar e me doerem as mãos de tanto bater palmas, com os vizinhos de todos os lados. E pensei, por exemplo, do desinteresse das TVportuguesas por espectáculos desta qualidade, substituídos por enlatados da Páscoa importados e algo rançosos. E também nas políticas culturais que nem sabem, nem sonham que gente deste quilate existe, no outro país. No país gentil, dos sonhos e sorrisos que não dependem das benesses do Poder. Por isso, muito ficamos devendo – os que foram à Lapa – à empresa patrocinadora do concerto, cujo nome nem sequer foi revelado, que assim se comporta em benefício da qualidade do outro país. Do país que vale a pena e, espero em bem, possa sobrepor-se aos pesadelos que o ensombram.

Naquela noite de todas as esperanças, apesar do tempo de «angústias e renúncias» que enfrentamos, o soprano e o coro, na 5.ª parte do “Requiem”, cantaram, para que os ouvíssemos e entendêssemos o significado das suas palavras “(…) ver-vos-ei de novo e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria.”

Helder Pacheco, in JN 8-5-2008

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