Com espanto

 Um amigo meu, “espírito delicado e culto” (citando M. Teixeira Gomes), deixou de ler jornais e ver telejornais, para não se incomodar com o que se passa no país e no mundo. Estou quase a dar-lhe razão. Abro o “JN” e leio coisas que me deixam descorçoado. É caso para dizer: só me saem duques.

Como nem sequer tenho a mania de ser mais esperto do que os outros, dou por mim a ler sobre factos de que há muito falei e julgava ultrapassados pelo tempo. Assim, no “JN” de 8.3, encontrei a seguinte notícia: «Estufa Histórica ao Abandono». E subtitulando: «Estrutura pertence a privados. Câmara sem dinheiro para comprá-la». Perante isto, gritaria o Capitão Hadoque: «Com mil raios!»

Acontece que, ao escrever o livro “Grande Porto” (de 1986), falando da Quinta da Lavandeira, em Oliveira do Douro, dizia: «das propriedades mais notáveis da cidade (…) foi exploração modelo onde o Cons. Oliveira Leal experimentou métodos inovadores de produção agrícola». Acrescentando que, em 1893, o “Comércio” «noticiava a construção da Estufa Monumental fabricada pela Fundição do Ouro (38 toneladas de metal, além do vidro), réplica do Palácio de Cristal e anterior ao Mercado de Ferreira Borges. Um portento!» E rematava, desgostoso: «Só que neste país que deixa desagregar o seu património, tal monumento encontra-seem ruína.» Eaqui espantava-se outra vez o Cap. Hadoque: «Mille tonnerres!»

Em 1983, o bairrista gaiense Joaquim Antunes (que tanto tem defendido a sua terra) publicou o texto “Pavilhão-Estufa Monumental (Exemplar único da Península Ibérica)” aludindo ter sido o Conde de Silva Monteiro (morador no belo palacete da Restauração) a construir a estufa-pavilhão-jardim de Inverno na Quinta (que terá adquirido ao anterior proprietário) da Lavandeira. A estufa, iniciada em 1891, custou 10.000$000 réis e ombreava, para melhor, com as principais do género da Europa e encontrava-se «quase submersa pela vegetação que a cerca (…), acusando a ausência de muitos vidros; é a imagem viva do abandono a que foi votada». E adiantava Antunes: «faz pena vê-la deteriorar-se lenta e progressivamente, até ao seu desaparecimento total se, entretanto, nenhuma atitude for tomada em sua defesa».

O que dizer, 28 anos passados? A resposta é dada pela útil peça do “JN” (que uma vez mais atesta a atenção à realidade local). Confesso a minha estupefacção, já que, quando a descobri, fiquei deslumbrado com a estufa e, depois, expectante, quando o Município gaiense transformou a Quinta da Lavandeira num parque urbano absolutamente exemplar. Nestas ocasiões, conforme pensava o meu amigo sueco Per-Uno Agren, a vantagem dos portugueses é terem sempre ainda muito para fazer. Falta, pois, em nome do que resta deste património insubstituível da arte do ferro (espécie de ADN da região do Porto), salvar a estufa do snr. Conde e convertê-la, qual cereja no topo do bolo, em atracção e pólo cultural que honre o presente. A bem do futuro do Bem Comum.

 


 
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