Da República

Entre iniciativas meritórias, as comemorações do centenário da república tiveram – em minha opinião, que vale o que vale e, por ventura, não muito – aspectos lamentáveis significativos de algum primarismo, a ausência de isenção e rigor. E, se calhar, certa desonestidade intelectual.

Do que assim me parece, destaco: 1.º O apoucamento e até enxovalho do regime monárquico, esquecendo que, além de ter sido servido por alguns políticos cuja categoria não tem equivalente no que se vê por aí, culminou numa democracia liberal que, por exemplo, conheceu vitalidade cívica e liberdade de imprensa sem comparação nos tempos que correm. 2.º No oposto, assistiu-se à diabolização da I República, por parte de certos meios, apagando o imenso edifício político, legislativo e social erguido em 16 anos, contra tudo e contra todos, num país com 75% de analfabetos. 3.º Uns tantos comentadores trataram vergonhosamente a intervenção portuguesa na I Guerra Mundial, omitindo (ou ignorando) que sob o lema “Pátria e República”, se procurou defender o regime e a independência nacional (contra a absorção espanhola) e as colónias (contra a ameaça germânica para a sua anexação). Um inefável articulista, dito progressista, chegou a bolsar que a participação na Guerra significou a opção republicana pelo colonialismo. Inaudito! 4.º Em regime dominado pelo nacional-centralismo de cariz totalitário, o 31 de Janeiro foi sistematicamente diminuído ou omitido pelos sectores 5 de outubristas e lisboetistas. A revolução portuense foi sobressalto, grito, inquietação e fermento da mudança política. Embora vencida e menosprezada, nada ficou como dantes no país e na consciência da maioria. Não poder ser nem rasurada nem classificada uma «sargentada». 5.º Certas vezes, quase insinuaram a unicidade do republicanismo capitalino, face às opções liberais do Burgo suspeitas de alguma indecisão quanto a mudança do regime.

De facto, a feição setembrista do liberalismo tripeiro e a sua inclinação patuleia e contestatária só poderiam ter pleno sentido nos ideais republicanos, desde cedo, pressentidos nos meios portuenses. Uma das primeiras manifestações de tal desiderato manifestar-se-ia já em 1841, e está patente num documento dirigido, em 12.10, pelo Governador Civil do Porto ao Ministro do Reino Joaquim António de Aguiar, assim resumido: «Havendo ontem constado nesta repartição por comunicação particular que na povoação de S. João da Foz tinham sido percorridas no dia 8 e 9 do corrente algumas ruas por sujeitos a cavalo, conduzindo uns bandeirolas de cores, outros clarins de folha de Flandres, à imitação de porta-voz, fazendo alarido, e algazarra, e proferindo vozes criminosas de – VIVA A REPÚBLICA -, a que também acrescentavam – VIVA O SNR BISPO -, oficiei imediatamente ao Administrador do Julgado respectivo, para que logo, logo fosse áquela povoação averiguar com o maior escrúpulo e exactidão aquele acontecimento (…) V. Ex.ª conhecerá que felizmente foi tornado aquele acontecimento como uma rapaziada pela gente da povoação, à vista das pessoas que compunham a cavalgada, e que são notoriamente taxados de muito tolos na frase vulgar. Os nomes referidos pelo Administrador no seu ofício são aqueles mesmos, que me haviam sido declarados, e por eles deixei de dar ao acontecimento a importância política, que aliás lhe daria, sem contudo deixar de formar logo firme tenção de fazer empregar os meios legais para evitar a repetição de semelhantes loucuras que por fatalidade imprevista poderiam degenerar em acontecimentos sérios (…)»

Seis anos depois da vitória liberal na Guerra Civil, já no Porto gritavam vivas à República que, classificados embora de «muito tolos» e «loucuras» não deixavam de ter, pela antecipação, algum significado. Cinquenta anos depois, os mesmos epítetos seriam lançados sobre os acontecimentos de 31 de Janeiro. E, ainda agora, segundo certas opiniões…

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