Eléctricos

Na paisagem sentimental do Porto, o «eléctrico» (como nós simplesmente lhe chamávamos) é espécie de objecto de família. Através dele a cidade irradiou tanto do centro para as suas freguesias, como para fora de portas, encurtando distâncias e proporcionando a intercomunicação entre realidades que, nada tendo em comum, passaram a estar unidas por esse fantástico novo meio de transporte expedito, rápido, cómodo e com horários. A partir dos inícios do século passado, a modernidade batia à porta de muitas zonas e bairros da cidade, à medida que o eléctrico lá ia chegando.

Significativo da importância da sua presença na vida portuense é o facto de lhe serem dedicadas, muitas dezenas de referências literárias, desde os anos 20 de 1900 até à actualidade. Mais do que de qualquer outro meio de transporte. Só citando algumas: em 1944, num dos mais belos escritos sobre o Burgo escrevia Torga «meto-me num eléctrico e dou a volta ao mundo, a descer à Foz pela Marginal e a subir pela Boa-Vista». Curiosamente o conceito de «volta ao mundo» seria retomado por Aquilino (1951 noutro percurso: «Quando se toma aquele eléctrico 20, que sobe a Rua de Santo António para a Constituição e parece sem rodeio ir dar a volta ao mundo…»

Naquele mesmo ano, Pascoaes escrevia: «Tomei um lugar no eléctrico, com as vidraças marejadas de lágrimas a rirem-se de mim, sob a projecção luminosa de dois focos de vidro, cravados no tecto da carruagem.» No ano seguinte, Régio diria: «buzinavam os automóveis, os carros eléctricos subiam e desciam com grande alvoroço de campainhas e ferragens». E como os eléctricos até suscitavam a poesia e promoviam afectos, noutro esplêndido trecho, Rebordão Navarro (2004) evocá-los-ia assim: «ia tomar o eléctrico a uma paragem afastada da tua para conseguir lugar sentado que te cederia, o teu sorriso e o teu perdão iluminavam o trajecto que eu pretendia longo e sem fim…» E podia acrescentar mais mil lembranças.

Vem isto a propósito da carta de um leitor do JN que, admirador, utente e apaixonado pelos eléctricos, lhes dedicou algumas quadras, assim resumidas: «No Porto, os amarelos / No afã de todos os dias, / Coloriam em tons belos / O verde das cercanias. // Zorras sujas e vagões / Transportavam, sem canseiras, / Cinzas negras dos carvões, / E os cabazes das peixeiras.»

Ver o eléctrico traz-me à lembrança o tempo do leite e mel da minha infância, nos dias inesquecíveis de ir à Foz (ao Chalet do Carneiro e, depois, ao aquário), a Leça (comer queques no Bem Escondidinho), ao Lima (ver jogar o FCP), ao Palácio (ao Circo), a S. Cosme (à feira das nozes) e a outros sítios onde pais e avós em estado de graça nos ensinavam a crescer. Por tudo isto, de vez em quando, apanho o fantasma do um (o querido um) no Infante e deixo-me ir até à Foz a matar saudades. Como se o tempo estivesse parado. E, se querem saber, nesta viagem no eléctrico da minha infância, consigo regressar à última utopia que nos resta: parar o tempo no preciso momento em que fomos felizes e reencontramos aquela sensação subtil, volátil e indefinível chamada doçura de viver.

Anúncios

 
%d bloggers like this: