Ironias oitocentistas

JN 2005-05-05

1854 e 55 ficariam assinalados, no burgo, pela abertura da Escola Industrial e o aparecimento dos jornais “O Comércio” e “Jornal do Porto”. Sá Noronha, Carlos Dubini e José Arroio empenhavam-se no relançamento do teatro lírico. Na Rua de Santo António, foi fundada a prestigiadíssima firma Emílio de Azevedo Campos (ainda ali existente!) e seria inaugurada a primeira “Casa de Banhos” pública. Mas, como não há bela sem senão, o Porto foi assolado por uma epidemia de cólera que apressou a abertura do Cemitério de Agramonte.

Acontecimento da maior importância para uma cidade que procurava expandir a sua actividade económica seria a realização da Primeira Exposição Industrial, em 1855, ano em que o italiano Jacopo Carli abriu uma Escola de Canto, gratuita, a funcionar aos domingos de manhã na Câmara. Também foi inaugurada a iluminação a gás substituindo os mal-cheirosos lampiões de azeite de purgueira.

Tal progresso tinha servido de inspiração ao aparecimento do semanário “O Bico de Gaz” (a Companhia Portuense de Iluminação a Gás fora autorizada a laborar por Carta da Lei de 1853). Assim, no 1.° de Maio de 1854, os portuenses foram mimoseados com a venda, a 40 reis, daquele Jornal no Armazém de Papel de Freitas Júnior, rua das Flores, 250.

O seu “Redactor em Chefe” escondia-se sob o pseudónimo de “O Antigo Juiz das Almas de Campanhã” e tinha como colaboradores “espíritos eminentes, que honram o século XIX”.

O conteúdo visa as cabeças bem-pensantes e principalmente os novos-ricos que ascendiam na vida social do Porto (e do País) na esteira do desenvolvimento material e da acalmia política trazida pela Regeneração – época propícia à classe plutocrática e à aristocracia auto-promovida. Logo no princípio da “Introdução” lê-se “Este jornal é a estrela matutina dum novo dia de civilização. Nasce, como Galileu, disposto a desmentir os prejuízos do século. Vai, como Cristóvão Colombo, acender o fósforo das luzes nas plagas escuras da ignorância”.

E adiante “Este jornal nasce amaldiçoado, como todas as ideias grandiosas, desde as sublimes teorias de Pitágoras, até ao ascetismo do mestre sapateiro, que apostolisou a doutrina do quaker. O sr. padre António de Penafiel, que o leitor não conhece, nem eu, ao ler o prospecto deste jornal, benzeu-se três vezes, e obrigou a sua família a rezar, em coro, os versos de S. Gregório”.

Seguia-se uma “Revista do Porto” em que o redactor se demarcava dos folhetinistas que dizem mal de tudo através de “sandices, injuriosas à filosofia, à moral, ao público e à gramática”. E afirmava “Eu não sou assim. Principiei há pouco o meu tirocínio nas letras e nas paixões”. À frente, abre o comentário sobre a vida portuense, escrevendo: “Aos que dizem que o Porto é selvagem, respondemos com os factos.

A vida, que aqui se vive, ébria de gozos do espírito e rica das galas opulentas duma civilização juvenil, não inveja as regalias da capital. O sestro da crítica mal alinhavada por imbecis que são inferiores a ela, tem sido a argola a que se prendem os muares, quando ainda são potros em literatura. A cidade da virgem tem sofrido, silenciosamente, os golpes da ferradura de alguns, que vieram a fazer curvetas no folhetim, sem terem o picadeiro das primeiras letras” (para quem afiançava entrar no mundo “com o coração em ponto de açúcar e com a face purpurada de pudor”, o estilo é pouco ameno).

Mas onde o articulista mostra a verve demolidora é quando descreve uma reunião de membros da Assembleia Portuense.

Fundada em 1834, na Praça da Trindade, propunha-se “cuidar da civilização nacional” e dispunha de uma “Sala da Companhia” destinada à conversação, a jogos “lícitos” e gabinete de leitura. Nesta sala serviam gratuitamente aos sócios chá e biscoitos, e sendo o pavimento, para atenuar o frio, coberto por grossa esteira de esparto, passaria a ser designada como “o Palheiro”. Reunidos, portanto, “às 9 horas e um quarto, no salão da Assembleia Portuense”, o sr. Timóteo Vinagreiro, “acabando de tomar a oitava chávena de chá, e o quadragésimo biscoito de Avintes, disse Senhores colegas e amigos meus a quem muito benero e estimo. Saberão que os prélios deram à luz um folheto, alumiado (…), no qual semos postos a redículo, com as mais trôpegas ilusões” (além dos erros de gramática, a última frase queria significar “torpes alusões”. Tudo para destacar a baixa preparação dos membros da Assembleia). No seguimento, o sr. Tadeu Cassoula diria: “Já bimos; não é naçairo lê-lo; saibo se os outros insestem na cousa”. E todos: “Já bimos, já bimos.” (o ridículo é evidente).

Sob o título “Literatura Palpitante”, escrevia, a propósito do hipotético livro “A Vespa de Parnaso”, recém-publicado, o viperino articulista “A imprensa do Porto custa-lhe a conceber, mas, quando concebe, vem sempre à luz do mundo literário com um parto robusto, esperançoso e digno dos pais. A Vespa de Parnaso, recém-nascida, ocupa o espírito público, e inaugura uma nova época nos pastos da poesia.”

Uma publicação deste género, cuja leitura é elucidativa do ambiente social e dos preconceitos com que o autor observava certa burguesia Portuense, provocaria reacções de quem se sentia atingido.

Resta dizer que o «Antigo Juiz das Almas de Campanhã», que tão, cruamente retratava as debilidades e alguma mesquinhez de uma sociedade ávida de sucesso e afirmação, era Camilo Castelo-Branco. Bem caro pagou a irreverência.

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