Janeiras

Eu vivo num arrabalde de mim próprio. E passo a explicar: para um portuense nascido e criado na Rua do Correio, no coração da Baixa, viver na periferia deste universo fantástico é exilar-se da sua substância. Ainda assim, tenho sorte por habitar dentro do Burgo. Se tivesse ido parar aos confins suburbiais, era bem pior. Apesar de contemplar o rio e o mar, e estar rodeado de bosques e outonos deslumbrantes, não é cidade. É uma colecção de condomínios e espaços de estacionamento.

Porque uma cidade (ao menos para mim) são ruas com lojas, cafés, tascos, quiosques. Passeios com a gente a cruzar-se, saudar-se e conversar. Aromas, cheiros e ruídos das lojas. Falares e vozeares na partilha dos espaços comuns. Homens-estátua, cauteleiros, vendedores ambulantes, tocadores de música e até pedintes e penduras. Uma cidade são varandas com flores, granitos lavrados, anúncios, letreiros, cartazes. Semáforos e trânsito. Como no bairro onde moro, além da paisagem, só há solidões, vazios, silêncios sepulcrais, ventanias enregelantes, dilúvios de água correndo no asfalto, quando chove, e assaltos a automóveis, longe da Vitória e de Carlos Alberto, onde me nasceram os dentes, sinto-me fora de mim.

Uma noite destas, por meados de Janeiro, estava eu no meu 8.º andar-esquerdo, trabalhando para ganhar a vida, quando ouvi cantarem coro. Aguceia escuta e arregalei os ouvidos: – Estaria sonhando? Fui à janela e vi, qual visão fantasmagórica, envolvido na névoa, morrinha e frialdade, um grupo numeroso cantando as Janeiras. Cantar as Janeiras nos tempos que correm, tão impetuosos de modernidade, tecnologia, sofisticação e TG.vês! Cantar as Janeiras com este défice e a imperiosa necessidade de ser competitivo! Cantar as Janeiras em lugar de navegar na Net e ver telenovelas ou “reality shows”! Que audácia e que deslumbramento, ouvir prístinas vozes enchendo a noite ao som dos instrumentos da tocata!

Da cidade oitocentista deixou-nos Alberto Pimentel a lembrança das canções das ruas: «os cantos de boas-festas, quer as vozes fossem harmoniosas ou dissonantes, alegravam a noite de Natal, vitalizavam jucundamente a escuridão e quebravam o silêncio habitual das ruas do Porto». Ainda sou do tempo em que grupos cantavam pela cidade. E, embora isso pareça parolo e pouco vanguardista para certos figurões, a cidade ganharia humanidade, espírito e carácter, se reassumisse esse costume, tão belo e entranhado.

Disseram-me que o Encontro de Janeiras no Pavilhão do Palácio reuniu 4 000 participantes, correspondendo ao apelo do Bispo do Porto no sentido de relançar a tradição. Oxalá, no futuro, se espalhem pelas ruas, bairros e lugares e transformem os silêncios da cidade em fraterna comunicação.

É nos momentos de crise, especialmente de crise de valores, que estes gestos se tornam importantes. Como dizia, há anos, o Quim Nascimento, autarca de Miragaia, a um adversário, que o censurava por, em lugar de lhe dar casa, gastar dinheiro na festa de S. Pedro: «Deixa lá. Se vives mal e não tivesses festa, ainda vivias pior.» Sem Janeiras, música, alegria e um pouco de esperança, a crise, se calhar, é mais dolorosa.

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