Lendas

Lenda é «narrativa fabulosa ou mítica concernente a qualquer personagem quase sempre histórica». Ou: «Narrativa fastidiosa, longa e enfadonha. Mentira, patranha, falsa tradição, narração da vida de sonhos.» Dá para tudo. Do sério ao risível, do credível ao mentiroso. Nos tempos que correm, de fantasias tecnológicas, patranhas mediáticas, mentiras científicas – como sondagens e estatísticas – e invenções financeiras que convertem as fadas em magia rudimentar, tem sentido falar de lendas? Têm algum valor quando não há serões para serem contadas, e as crianças do jardim-escola nem acreditam no Menino Jesus, quanto mais em fábulas das eras em que os animais falavam?

Digo que sim (mas não devem tomar-me a sério porque este país não é para anjinhos). Que sim, porque, quando os últimos resquícios do sonho, o que resta da fantasia e o que sobrevive da poesia desaparecerem, então tudo morrerá – e não gostaria de viver num tempo assim. Porque proclamam crenças comuns à Humanidade. Independentemente de raças, credos, geografias, encontramo-las, com outros nomes e personagens em diferentes culturas e civilizações (algumas com milhares de anos). Contendo, não raro, verdades históricas escondidas, ao adaptarem-se às identidades locais, fomentam a coesão dos lugares de onde emergem. Constituíam, através de histórias de proveito e exemplo, suportes de certa moral social, abonatória ou sancionatória.

Estes factores encontram-se explicitados no livro “Percursos Através das Lendas do Porto, V.N. Gaia e Matosinhos”, recentemente publicado pela investigadora Emília Lemos, que nos faculta um olhar sobre o significado das lendas no espaço urbano. Através dele, mergulhamos nos meandros da tradição e dos costumes populares. A sua originalidade é juntar os patrimónios visíveis e invisíveis da memória ao imaginário mítico das populações, reabilitando o culto da tradição e associando uma visão moderna à divulgação das culturas locais, através de factos hoje ignorados (como as «procissões da chuva» da lenda da Senhora de Campanhã). Ou interpenetrando oralidades poéticas e narrativas num só conto (como a lenda do Rio Douro). Ou apresentando variantes de uma história a que foram acrescentados muitos pontos (como na lenda de Miragaia). Ou proporcionando um regresso à infância, com a avó dizendo as lendas famosas (como a da Nau Catrineta e a do Pedro Sem – a mais entranhada na cidade burguesa). E mais desvendamentos como as lendas do Reimão e do Molete, de Cedofeita, das Sereias da Bandeirinha, da Moura das Virtudes, do Bispo S. Basileu, etc.

Obra que vale a pena ser lida como afirmação de identidade, eis a boa maneira de mostrar como crença, ingenuidade, candura – o que lhe quiserem chamar – entreteceram laços profundos da comunidade definindo modos de ser nos quais se confundiam heranças colectivas com a quentura dos afectos partilhados. Particularmente relevantes hoje em dia, porque (citando Patrice de la Tour du Pin): «Os países que já não têm lenda serão condenados a morrer de frio.»

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