Nacional-Centralismo

fcp

No Grande Auditório do Soviete Supremo do Nacional-Centralismo, reuniu a
respectiva assembleia-geral para análise, discussão e propostas relativas
aos pontos únicos da agenda «Pode o Império Centralista continuar a consentir que o F. C. Porto ganhe campeonatos? Pode o Império consentir que uma equipa da província, sem representatividade nacional, mantenha a
supremacia sobre as glórias do centralismo?»

A tais questões, pronunciaram-se os seguintes representantes dos Organismos
Tutelares do Centralismo da Confraria dos Centralistas Devoristas, que
advertiu; da Confraria Centralista dos Gestores 7+ (acima dos 7 empregos),
que berrou; da Confraria Centralista dos Gestores 7/5 (entre 7 e 5
empregos), que uivou; da Confraria Intelectual Centralista, que bolsou; da
Confraria dos Assessores Centralistas, que gritou; da Confraria de
Legisladores Centralistas, que decretou; da Confraria dos Grandes
Incompetentes Centralistas, que dejectou; da Confraria dos Médios
Incompetentes Centralistas, que arengou; da Confraria dos Provincianos
Convertidos ao Centralismo, que grunhiu; da Confraria dos Centralistas
subvencionados pelo Estado, que cuspiu; da Confraria dos Centralistas
nomeados por proximidade do sistema, que ganiu; da Confraria dos
Centralistas infiltrados nos Meios de Comunicação, que ladrou; da Corporação
dos Centralistas Avençados, que exortou; da Corporação dos Centralistas
Disfarçados, que invectivou; da Confraria Centralista da vista grossa à
Insegurança no país, que programou; da Confraria dos Consultores
Centralistas, que bradou; da Corporação Centralista de Comentadores de TV,
que expeliu; da Corporação Centralista dos Acumuladores de Subsídios, que
ejaculou; da Corporação Centralista promotora do abastardamento da Língua
Portuguesa, que perdigotou; da Corporação Centralista do Cosmopolitismo
Importado, que mesurou; da Corporação do Proteccionismo Centralista, que
rezingou; da Corporação Centralista dos Exterminadores de Serviços
Regionais, que peidorreou; da Corporação dos Yes-Men and Job for the Boys
Centralization System, que arrotou; da Corporação dos reality-shows
Centralistas, que discorreu; da Corporação dos Esbanjadores Centralistas,
que vituperou; da Corporação Centralista dos Saudosos da Censura Prévia, que
baliu; da Corporação Centralista dos Grupos de Trabalho, que praguejou, e
todos em uníssono votaram: «Não podemos consentir!» e «É ultrajante!».
Face à unanimidade, a Assembleia aprovou as seguintes conclusões:
1.º – Uma cidade a que o centralismo retirou quase tudo: emprego
qualificado, sedes de empresas, serviços, investimento público, etc., não
pode manter um clube que ganha campeonatos consecutivamente;
2.º -A única coisa que o centralismo ainda não conseguiu extorquir ao Porto
são os campeonatos; 3.º – Como os clubes centralistas não ganham no campo, é
preciso fazê-los ganhar em jogos fora do campo.
Para isso, serão adoptadas medidas imediatas a) lançar uma OPA sobre o F.C.
Porto, transferindo-o para a capital; b) aumentar o IVA do F. C. P., em 80%
e os impostos em 90%, para o fazer ir à falência; c) depois do dourado,
lançar apitos prateados, verdes, laranjas, vermelhos e até PINK – cor
favorita dos centralistas – para descredibilizar o F. C. P.; d) formar um
consórcio editorial para publicar exclusivamente livros de autores de
nomeada – designadamente mortos ou moribundos – contra o F. C. P.; e)
classificando-o como local altamente perigoso para o centralismo, expropriar
o Estádio do Dragão por razões de Estado; f) fazer aumentar a taxa de
desemprego da Área Metropolitana do Porto para níveis que obriguem à
emigração dos adeptos do F. C. P. para trabalhar na Galiza; g) legislar no
sentido de impedir os menores de 90 anos de assistirem aos jogos do F. C.
P.; h) em caso de insucesso destas medidas, determinar que, no início dos
campeonatos, os clubes do centralismo partam com 20 pontos de avanço.Mal
esta notícia chegou à cidade, na Vitória, na Sé, em Campanhã, em Lordelo, no
Aleixo, no Cerco do Porto, no Monte Crasto, no Monte da Virgem, nas
Cachinas, em Rio Tinto, na Feira, em Avintes, Custóias, Valongo e por aí
fora, em toda a parte onde há dragões, milhares de bandeiras azuis se
agitaram. E, enquanto os mais velhos cantavam a Maria da Fonte «Pela santa
liberdade / Triunfar ou perecer», todos faziam o gesto do zé-povinho na
direcção do antigo Sul (agora mudado pelos centralistas para West Coast) e
os jovens portistas cantavam: «Esta vida de dragão / Só dá campeão!
Tra-lará-lará – lará, lará-lará.»
*Publicado no JN e na Dragões de Maio *

 
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