O Cesto das Trocas

A crónica de hoje é mistura desencontrada de lembranças, sentimentos, recordações. Todos cruzados no espaço onde, dentro de nós, guardamos espécie de arquivo dos factos que nos construíram. E, como a cidade é feita de gente, estes e milhões de outros aconteceres da vida das pessoas iam tecendo, cerzindo, construindo a urbe.

A primeira lembrança veio-me de ter passado nos Guindais e ter «revisto», na distância de décadas, o afã de meu avô, preocupado em ir com alguém buscar o cesto que os amigos de Cinfães lhe mandavam pelo Natal. Vinha, como dezenas de outros, no rabelo que fazia a recovagem para Porto Antigo, Aregos ou, sei lá, outro dos ancoradouros onde os barcos atracavam. O cesto era maná dos deuses para bocas e gargantas citadinas, que tinham cinema, rádio, futebol e outras modernidades, mas a quem faltavam outros mimos. A saber: mel dourado, nozes, pinhões, figos secos, presuntos, mouras de sangue, salpicões, jeropiga, vinho fino, de lavrador, farinha de moinho (e não de moagem) e mais coisas que enchiam o poço sem fundo do cesto víndimo que, qual cofre das maravilhas, transportava «presentes» para as festas, vindas da parte da família que não emigrara do Douro para o Porto.

A segunda lembrança veio-me do livro encantatório de Alice Rios sobre as Famílias Tradicionais Portuenses. As histórias nele contadas demonstram, inequivocamente, que, no ADN da maioria das famílias que ajudaram a cimentar a identidade, o progresso e a dignidade – económica, cultural, científica – do Burgo, existe a origem duriense, beiroa, minhota, etc. Correndo para trás duas, três gerações encontrámos os velhos pioneiros, os patriarcas iniciais que, pelos mais variados motivos, demandavam o Porto e aqui fixavam alicerces pessoais. Não admira, portanto, que, no tempo em que os animais falavam da minha infância, os parentes durienses de meu avô o presenteassem em cada Natal com o melhor que a terra e o engenho lhes forneciam.

A terceira lembrança veio-me de um amigo como eu dado a estas nostalgias tão ridículas nos tempos de impetuoso furor transformista que vão correndo. Falou-me dos seus ancestrais do Freixo de Numão, de um tempo em que hordas de deserdados da difícil situação económica vivida no Alto Douro, nos finais do século XIX, se viram obrigados a emigrar para o Brasil ou para o Porto, à procura de condições de subsistência. E, em alguns casos, para obterem acesso a estudos, cursos e profissões que os sertões do interior lhes negavam. Muitos transformaram-se em indefectíveis portuenses.

Sua avó materna, como outros freixienses, fixou-se e constituiu família na Vitória onde, na zona dos Clérigos, nasceram a mãe e ele próprio. Ali, na casa da Rua do Correio, recebiam todos os natais o «cesto do Freixo». Dos que eram usados para as vindimas, fundos e seguros. Ao chegar Dezembro, aguardavam ansiosamente a chegada, pelo Correio, da Guia da CP para levantar, na Estação de S. Bento, o cesto tão desejado. E o que trazia? Couves, bola de azeite, aguardente, figos, nozes, amêndoas. Coisas simples mas saborosas e, sobretudo, o suplemento precioso para lhes alimentar parte das raízes enterradas num chão de que quase não possuíam vivências e com o qual, através do cesto, mantinham ligação afectiva (e gustativa). Depois, o cesto do Freixo era devolvido, levando o que lá faltava: arroz, bacalhau, café, açúcar e outras vitualhas.

Tal como na chegada, no ritual do abrir, o fecho do cesto era tarefa emocionada. Repunha-se a serapilheira que, com uma sovela, era cosida a fio do Norte no rebordo do vime. E, assim, aquela tão simples operação de dar e receber assegurava espécie de movimento pendular entre comunidades e famílias que, embora afastadas, mantinham, simbolicamente, ao menos no Natal, uma ligação misturada de afecto e de saudade. Que tempos e que gente, tão sóbria e persistente no modo como, honradamente, enfrentava e vencia as dificuldades do quotidiano!

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