O novo golpe

Em 1854, escrevia Camilo que “os ladrões aumentaram com a civilização, posto que os jornais diariamente nos aturdam com o catálogo dos roubos.” O que diria o mestre agora, se regressasse ao Mundo e visse o que por aí vai em tal matéria. Não admira. Quando “civilização” é confundida com permissividade e “democracia” com vale tudo, incluindo tirar olhos, os resultados são evidentes. Aliás, em 1858, o escritor acrescentaria algo que, nas minhas instrutivas viagens de autocarro, ouço continuamente “O Mundo está uma pouca vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por aí.” (Por causa de estas e de outras é que meu pai – honrado republicano – sempre defendeu que os políticos deviam de andar em transportes públicos. Para saberem a opinião do povo. Que ingenuidade! Como se a opinião do povo lhes interessasse para alguma coisa!)
De qualquer modo, os ladrões de antigamente pareciam gente honesta comparados com a
escumalha de agora. Tinham mais classe. Sobretudo os carteiristas, com formação adquirida em escola profissional para os lados da Areosa, que gamavam selectiva e decentemente. E devolviam tudo, excepto o dinheiro. Eram escrupulosos. Um dia, um surripiou o relógio de bolso a meu avô e, quando soube quem ele era, devolveu-lho, pedindo mil desculpas. Essa geração de gatunos com princípios deve ter acabado. Efeitos da globalização. Há tempos, roubaram-me a carteira no autocarro (uma chatice por causa dos documentos pessoais). Quando fui à Polícia apresentar queixa, o agente de serviço definiu correcta e claramente a situação “Se for ladrão sério, os documentos aparecem.
Se for um badalhoco, nunca mais os devolve.”) Nunca mais os vi. Presumo, portanto, que entrámos em plena era da badalhoquice, em muitos sectores e também em matéria de assaltos e de golpes. Os artistas do ancestral gamanço têm vindo a ser substituídos por subprodutos. Até nisto o sistema educativo rasoirou por baixo.
Surgiram nos últimos tempos vários métodos de assaltar o próximo, que pulverizaram os processos clássicos da cautela premiada ou de embrulho cheio de notas. Onde isso vai!
Agora, o rebotalho liminar assalta nas caixas multibancos, rouba telemóveis às portas das escolas, vales dos reformados das caixas de correio, santos dos nichos da cidade e até as caixas das esmolas. Enquanto isso, o rebotalho mais qualificado assalta sofisticadamente com o golpe da “gasolina que acabou no meu carro e esqueci-me da carteira”, o golpe do “ó tio (ou tia) então não me conhece? Eu sou o seu sobrinho (isto depois de sondar os idosos, sobre a família, os nomes, etc.) que agora regressou. Tenho de fazer uma escritura urgente e esqueci-me dos cheques. Podia-me emprestar 50 contos?”, etc., etc.
O último golpista de que me falaram anda por aí a assaltar, sobretudo mulheres condutoras. Quando estacionam num espaço qualquer, aparece o energúmeno, gesticulando, a dizer que lhe riscou o carro e tem que pagar os prejuízos. Se a vítima nega e refuta a acusação, ele ameaça com represálias. Se falar em chamar a Polícia, ele diz que está com pressa, tem de entregar o veículo na empresa e resolve o problema comprando um spray para tapar os riscos (feitos previamente a canivete). Como não despega, continua a ameaçar, insiste e amedronta. As vítimas, para que as deixem em paz, pagam-lhe. Dez euros. Assim, um parasita ganha, em poucos minutos, à custa de um golpe sobre incautos, o que muita gente honrada ganha num dia de trabalho duro.
Ficam pois avisadas as leitoras. Se ouvirem um escroque dizer que lhe riscaram o carro, o mais prático é chamar logo a Polícia. Poupam tempo e, seguramente, dinheiro. Enfim, como dizia um vivemos numa época moderna. E dizia o outro: isto é um oásis estatístico da criminalidade.

Helder Pacheco, in JN

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