O Piolho e Eu

Depois de ler, deliciadamente, o livro saboroso (e portuense) de Alfredo Mendes, escrito em prosa da mais fina água – ou não se tratasse de jornalista de escol e vocação e não de formatação – sobre o Âncora d’Ouro, para nós, tripeiros, chamado “O Piolho”, não resisti a dedicar algumas palavras a este símbolo da identidade novecentista da urbe.

O Piolho significa para mim, como outros lugares especiais, um referencial de emoções e um espaço de memórias. Como outros lugares, ele ajudou, através de coisas simples e pouco substanciais na sua essência (mas importantes para a construção da essência que nos molda à realidade), a sedimentar na minha vida momentos inesquecíveis. Este ou aquele, tão mágicos que ainda lhes sinto o perfume inebriante que a recordação dos acontecimentos felizes nos transmite.

Nas mais remotas lembranças do Piolho revejo-me, sentado ao lado do avô Eduardo, na esplanada que havia em frente. Era um Verão abafadiço, na tradição dos Agostos portuenses. Só podia ser domingo (a tarde de sair com o avô, que não gostava de futebol) quando, pela primeira vez, provei um refresco de groselha, de que fiquei freguês. Naquelas eras atrasadas não havia enlatados com sumos tropicais e subtropicais. Só groselha diluída em água ou laranjadas Sameiro – que desagradavam aos avós não dados a modernices.

Mais tarde, já independente, descobri os incomparáveis mazagrãs (soube tratar-se de bebida porventura árabe, pois o nome é argelino) do Piolho. Uma delícia de que me tornei rapidamente viciado e, depois disso, os mazagrãs atravessaram-me toda a juventude até deixarem de estar na moda.

Não apenas doçura de viver, de boca, mas de olhar – com que também se come – foi a noite de S. João em que, com a minha seita, entrei no Piolho e demos de caras com a loura tímida dos olhos azuis nunca vistos no Porto e arredores. Isto dito pelo meu amigo VD, mais tarde ilustre professor, que, logo ali, tomado de paixão fulgurante, jurou ter encontrado a mulher dos sonhos que sonhava. Toda a noite, até à saída do grupo da beldade, o Cupido do meu amigo dardejou setas inflamadas de paixão na direitura dela. Deu um trabalhão convencer o enfeitiçado a não assaltar «aqueles murcões que não merecem tal companhia», no sentido de libertar a recém-amada. Na semana seguinte abancou diariamente o Romeu no Piolho à espera de ver aparecer os olhos azuis. Debalde. Como acontecia com frequência, foi loucura de uma noite de Verão, púdica e sem danos colaterais. Só de ver.

No Piolho, pelos idos de 80 e tal – quando lá parava por opção nostálgica -, dei a primeira entrevista, em directo, com ruído-ambiente de chávenas, risos, músicas e conversas, em conversa com o Carlos Magno. Ele trouxera de Macau uma chinesice tecnológica supersofisticada, de colocar na lapela e, sem ninguém dar por isso, gravar ou transmitir o que se passava. Naquelas eras remotas, sem totalitarismo centralista, os estúdios do Porto da RDP I e II ainda transmitiam para o país emissões produzidas por profissionais excelentes. Fizemos um programa em cheio, discutindo o Porto com o Piolho como pano de fundo.

E, se puxasse pelas palavras, ainda saíam mais cerejas, mas por aqui me fico, elogiando o querido Piolho, meu ancoradouro de infância com sabor a groselha de lamber os beiços.

Helder Pacheco

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