O Porto

Quero aqui dizer que admiro o Arq. Fernando Távora. Pela obra, pelo exemplo e influência na nossa arquitectura. E, sobretudo, pela dívida que o Porto tem para com ele, na defesa da Ribeira / Barredo contra a barbárie que ali se projectava, arrasando-o e construindo um silo-auto.

Mas isso é uma coisa, outra é concordar com a colocação da estátua do Porto, de costas para a Vitória, nas traseiras da casa / torre / memorial da Câmara medieval, junto à Sé. Tal facto, motivo de chacota pública, é das situações mais ridículas da cidade, que não a honram, nem ao arquitecto da obra.

A estátua do Porto foi encomendada em 1818 ao Mestre Pedreiro (e canteiro), João da Silva, que a terá esculpido segundo o modelo de João de Sousa Alão – o mais reputado escultor portuense da época. Granítica e figurando um soldado romano, a estátua foi colocada no frontão do edifício da Câmara, no Palacete Moreira Pereira, que rematava o lado norte da Praça Nova e seria demolido em 1918 para abertura da Avenida.

Aquela figura, pela simbologia e apelo ao lendário, entrou no imaginário popular como alegoria ao “Malhão”. A ele se cantava numa canção da Patuleia: «O Malhão da Praça Nova / Tem uma lança na mão / Para matar os Cabrais / Que são maus para a nação.»

É altura de se pôr cobro ao ridículo a que se encontra exposta a estátua, recolocando-a, pelo que representa e simbolizava, no sítio nobre para onde foi criada: a Praça. Não no local exacto onde se encontrava (esse pertence à Menina Nua que fica lá bem e dá gosto ver), mas junto do local da antiga câmara, na embocadura da Rua Magalhães Basto. Bem enquadrado, o «Porto» regressaria ao coração da urbe e os portuenses tinham mais um motivo para aumentar a auto-estima e não de se rirem. Aqui deixo, pois, a sugestão, individual e graciosamente.

Helder Pacheco, Dezembro 2012

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