Os resistentes

Entre nós é tudo muito democrático. Enche-se a boca com a democracia. Para aqui, para ali, para acolá. Mesmo quando a enxovalham, em palavras, este é o país com mais democratas por metro quadrado. Indígena da Vitória, fui ao velho dicionário de Moreno, que me acompanha desde 1961, e li: «Democracia – Governo do povo; soberania popular; as classes populares, o povo». E outras vulgaridades para comentadores, politólogos e quejandos da pós-modernidade. E mais adiante: Democratizar é «dar feição democrática a» e – oh raios e coriscos da parolice! – «popularizar!»

Para muitos detentores de alavancas do poder cultural, popularizar é palavra maldita. Entre nós, falar claro, tornar acessível à maioria, democratizar a cultura no sentido de a transformar em instrumento de criação, participação e usufruto é, para certas minorias activas, irrisório e inadmissível. Por isso o cinema português é – salvo honradíssimas excepções – uma catástrofe chata e muito teatro – para não ser «popularucho» – vivendo nas altas quimeras do incompreensível, serve para exercícios onanistas de gozo das elites iluminadas. Hoje, tal como Camões e Vieira, Garrett seria proscrito, por reaccionário e ultrapassado.

Vem este exorcismo a propósito do silêncio e desatenção concedidos neste país repleto de democratas ao teatro associativo (que já tem vergonha de se designar amador, para não ser excomungado). Sendo, por essência, exemplo de participação activa na vida pública, de devoção anónima e desinteressada à arte, de animação sociocultural das comunidades tão violentamente agredidas pela desurbanização e a apatia cívica, o teatro associativo constitui o parente (mais um) paupérrimo das políticas culturais de uma democracia que, nesta e noutras matérias, nos envergonha. Paupérrimo porque, arrostando milhentas dificuldades e incomodidades (conheço um grupo do Porto que ensaiava num barracão coberto de zinco), o teatro amador sobrevive e resiste. Pratica a vocação social de uma arte para e a partir das populações e ainda paga por cima (conheço grupos que se deslocam, através do país, a expensas dos seus membros, só pelo gosto de serem solidários com os companheiros de uma causa comum).

É este o mérito do Amasporto – encontro de teatro associativo da Área Metropolitana do Porto –, que vai no seu 15.º ano. Organizado pela Companhia Teatral de Ramalde, da persistente Associação 26 de Janeiro, o Amasporto (palavra quase mágica que tanto dá amor ao Porto, como amadores do Porto, mas, seja verbo ou substantivo, a raiz é sempre a mesma: amar a cidade e o teatro) permanece vivo.

Na sua edição de 2009, há pouco encerrada, apresentou 9 grupos e outros tantos espectáculos, totalizando, em quinze edições, 127 espectáculos com 2 248 participantes. Nos tempos que correm é obra e é muita gente com espírito suficiente para não se resignar à mediocridade, nem abdicar de ser interveniente de um ideal de promoção humana e desenvolvimento social, não subordinado aos ditames do mercado ou ao totalitarismo dos que pretendem levar ao povo a salvação cultural. Não. Estes grupos são livres, escolhem o que querem – e muitas vezes muito bem – e dedicam o melhor que podem e sabem na promoção dos valores profundos de um país de cidadãos.

São estes gestos, estas iniciativas, que, honrando a cidade, a vão mantendo habitável (e poética) e dão sentido aos versos (de 1928) do hino do Grupo “Flor Nogueirense”: «O Teatro é uma escola / É uma fonte de instrução / Sendo bem orientado / É uma salutar lição.»

Anúncios

 
%d bloggers like this: