Qualidade de vida

É claro para mim que quanto melhor funcionar, quanto maior conforto, segurança e bem-estar proporcionar a cidade aos habitantes, melhor eles vivem. Melhor eles são e, sobretudo, mais felizes podem ser. Num dos mais degradados bairros – ditos – sociais do Porto (a começar pela pavorosa arquitectura), um amigo dado à filosofia existencial comentou: «É um milagre crescer aqui e não acabar em Custóias!» Tinha razão. O “handicap” social ali é tal, que o milagre é fruto da dignidade e coragem de muitas famílias que, apesar de tudo, permanecem gente de bem.

E, depois, uma cidade feliz pelo seu quadro de vida torna-se competitiva em termos de prestígio e atractividade. E isso conta, já que não conheço nenhuma cidade abandalhada e desqualificada que consiga atrair alguém num mundo de exigência.

Dirão alguns: «Mas a qualidade e a manutenção das cidades custa dinheiro!» E a mediocridade não fica mais cara? O dinheiro deitado fora em investimentos que não trazem um milímetro de retorno, não induz desenvolvimento. O país está cheio de obras de natureza milionária, completamente inúteis para o progresso da Grei. Ou, melhor, utilíssimas para os interesses da única cidade (a Capital) com pretensões a rica à custa dos outros, que se prepara para lançar projectos para os meus netos e bisnetos pagarem. Mas, para não ser acusado de facciosismo, direi que bela despesa inútil foi a construção da famigerada ciclovia do Parque da Cidade à Pasteleira, que continua a fazer arrepiar os cabelos a quem lá passa!

A que vem tudo isto? Explico: como já disse, sou frequentador de feiras e mercados. Gosto de lá andar a ver e cheirar. Como escreveu o emigrante Amândio Sousa Dantas, «Não troco a feira da Ponte pelo consumo programado do supermercado. / Lá, ainda tenho a minha liberdade.» Frequento, pois, sempre que posso, a Feira dos domingos, na Pasteleira. Para além das utilidades do homem das hortaliças com o seu cavalo alazão, dos jovens do fumeiro de Lamego, do vendedor de bugigangas úteis à casa e de milhentos outros artigos, falsos, verdadeiros, copiados, feitos e contrafeitos, revive a feira à antiga, como já não há neste mundo de avatares, cada vez mais irracional, virtual e liofilizado.

Choveu, como sabem, copiosamente, alagando tudo e sobressaltando a cidade. E o que pensam que aconteceu aos espaços da Feira? Ficaram um mar de lama e incomodidade onde as pessoas se atolam e os veículos dos feirantes se atascam. E sabem o que acontece na Europa (onde estamos na boca da propaganda), quando as feiras se levantam? Em York há uma feira assim aos sábados. À hora de encerrar, logo a brigada da limpeza levava o lixo e mangueirava o espaço. Meia hora depois, estava tudo limpo e asseado. E o mesmo em Umea (na Suécia – diariamente, no centro) e em Bordéus, no bairro antigo, no Sul de França e em Londres, etc., etc. Tudo limpo no acto. Experimentem passar, horas depois, pelo recinto da nossa feira e vejam o lixo, o desmazelo. (E lá vem: mas limpar custa dinheiro, sobretudo aos domingos! E a qualidade de vida não vale isso?)

Como diria Eça de Queirós: «Com mil bombas!» Será que a Feira da gente da Pasteleira não merece um espaço cómodo, asseado, confortável – um simples plano de ordenamento local, qualificando espaços e melhorando condições (como o alargamento dos passeios que servem de sítios de venda e a transformação dos pretensos relvados onde se formam lamaçais, em superfícies de feirar)? Ou outra ideia que assegure a esta forma de cultura tradicional urbana a qualidade e dignidade a que tem direito. E não será assim que se melhora a cidade?

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