Que noite!

Nos tempos da sabedoria quotidiana, dizia-se “Páscoas de longe desejadas, num dia são passadas”. Nem mais. Mal sabia o anónimo inventor de rifões que a festa anual (afinal, disso se tratava, já que o significado de Páscoa é também de festa, alegria, divertimento, satisfação) em louvor da Ressurreição de Jesus Cristo, que o seu comentário seria, na pós-modernidade, ajustadíssimo. Porque agora é assim: em tempos descarnados de convicções e contaminados de abulia espiritual, a Páscoa é de longe desejada pelo fim-de-semana e a ponte prolongados para bronzear no – conforme os delírios centralistas – Allgarve, embarrilar as estradas, consumir gasolina e regressar (ou não, pode-se morrer às mãos de um psicopata do volante) com o sentimento do dever cumprido e da espiritualidade redimida.

Aos humanóides em vias de extinção, que não curtiram Allgarves, Caraíbas, Cancuns, Torremolinos, Sanxenxo e outros locais cosmopolitas, na noite de Sexta-Feira Santa, brindaram-nos a Venerável Irmandade de N.ª Sr.ª da Lapa e o Coro da Sé Catedral com um Concerto de Páscoa absolutamente memorável, na Igreja da Lapa.

Disse memorável, porque será difícil esquecê-lo. Esquecer uma noite em que a magia de um ambiente em certos momentos quase intemporal pairava no espaço grandioso do templo, cuja feição clássica e a simplicidade ornamental nos transmitem uma extraordinária sensação pacificadora. E memorável, porque dificilmente seria (será) possível, excepto nestas circunstâncias, escutar uma peça tão complexa quanto incomparável como o requiem, de Gabriel Fauré, com a emoção, o arrebatamento, a plenitude de uma atmosfera musical carregada daquela sedução que as interpretações eloquentes lhe conferem.

Momentos felizes, estes, vividos com Fauré, porque o seu requiem não é um percurso sensorial e estético, através do carácter trágico da morte, mas um desvendar daquilo que o programa do concerto considerava “a doce esperança da vida eterna (In Paradisum) explicitamente cristã”. Momentos felizes, perfumados pelo toque de certa euforia, suave e delicada talvez, porque, nas palavras do próprio autor “O meu requiem foi composto para nada… para o prazer, se posso dizer”. E acrescentava: “alguém lhe chamou o embalo da morte: como uma feliz libertação, uma aspiração à felicidade do além, mais do que uma passagem dolorosa”.

Na segunda parte, o concerto incluiu duas peças de Félix Mendelsson-Bartholdy um hino sobre o Salmo 54/55 (“Oh! Pudesse eu voar como a pomba, fugindo para / longe do inimigo! / Correria para o deserto, encontraria abrigo num lugar de sombra”), e Cristhus, op. 97, “obra incompleta que mais não é do que frag-mentos de uma grande Oratória, que o autor não concluiu e transmite, na sua essência, “a agradável surpresa interior de uma meditação” sobre o Mistério da Paixão (“Onde estás, ó sol que a noite escondeu, / oh noite inimiga do dia!”)

Actuaram o Coro da Sé (referência artística do Burgo – que o enobrece) e o Ensemble Orquestral do Porto, constituído por instrumentistas residentes na Área Metropolitana do Porto para apoiar o Coro na realização dos Concertos Pascais, tradição há 25 anos enraizada no património portuense. Quatro solistas, com destaque para a soprano islandesa Gudrun Ingimars (que deu voz aos anjos), compunham o elenco deste espectáculo magnífico, dirigidos pela batuta de Marc Tardue, maestro que, na Sinfónica do Porto, nos habituou a noites de música tocada – passe o prosaico – como se fosse um relógio de precisão.

Que noite! À saída, comentei “Se fosse lá fora, diríamos: isto é que é categoria.” E pensei: afinal, a integridade cívica e o sentimento desta cidade permanecem intactos. Não é fácil, por aí acima (e abaixo), assistir a um concerto deste nível, com a elevação de um público atento, devotado e conhecedor (ao contrário de locais ditos selectos, onde se bate palmas entre os andamentos, aqui, as pausas foram religiosamente cumpridas). Afinal, contrariamente ao que gemem os cultivadores da catástrofe, quando existe tradição, hábito e exigência de qualidade, há público. Provavelmente o que falta é categoria, em muitos espectáculos a que ele não vai.

Nos prenúncios da Primavera e da ressurreição da vida, com a alma robustecida e o cérebro limpo, por momentos, do lixo que por aí abunda, veio-me à lembrança um verso do coral do Christus, de Mendelsson “Como é formosa a alvura da estrela da manhã!” (Depois, com o entusiasmo das baterias recarregadas, ainda pensei: “Que bom é ser de uma cidade onde estas coisas acontecem.”)

Helder Pacheco, in JN 5-3-2007

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