Quero uma ponte

No Porto, cidade liberal, sempre se praticou o direito de opinião, a acção pública, a crítica e a contestação. Tudo isto inerente ao ADN cívico das sociedades democráticas. O problema é que, atrás de tais valores, podem acoitar-se interesses e individualismos mesquinhos e movimentos paralisantes que bloqueiam e, não raro, ofendem o Bem Comum.

Noticiaram os jornais que o Vice-Presidente do Município de V.N. de Gaia se insurgiu contra a situação existente em matéria de travessia pedonal entre as duas margens. Defendia, por isso, a construção de novas passagens nas ribeiras de cá para lá do Douro. Não posso estar mais de acordo. A realidade patente é vergonhosa. Desde 1886, a Ponte Luís I constitui a travessia pedonal à cota baixa. Percorro com frequência os dois passeios, com um misto de revolta e repugnância. O que foi construído para as necessidades do séc. XIX responde agora ao trânsito de milhares de pessoas, em verdadeira competição quanto a segurança com autocarros e camiões rasantes. Carros de bebé ou cadeiras de rodas provocam a invasão da faixa de rodagem pelos peões para lhes dar passagem. 114 anos depois, no país do choque tecnológico, Magalhães a rodos e telemóveis a pontapés, atravessar a pé a Ponte de baixo é pior do que nos tempos da Ponte Pênsil e da Ponte das Barcas que, nessas, os passantes tinham o tabuleiro à disposição.

Nos idos de 2000 realizou-se no Hotel Carlton, na Ribeira, uma reunião de duas dezenas de representantes das duas autarquias, para analisar e discutir o projecto da ponte pedonal a construir, em arco, no local da Ponte Pênsil. Depois de acesa discussão, a maioria absolutíssima dos participantes (atrasados mentais, vendidos, vândalos e incultos – segundo as opiniões dos fundamentalistas da inércia) aprovou, com algumas correcções, o projecto proposto. Quando tudo parecia encaminhar-se para Porto e Gaia saírem do séc. XIX marasmático e entrarem no século da comodidade e segurança, com financiamentos assegurados e vontade autárquica de avançar para o futuro, violenta campanha dos detentores da alma da cidade deve ter assustado com previdências cautelares a classe política que desistiu do progresso. Os argumentos eram inefáveis: a nova ponte, muito próxima da de Luís I, tapava-a, retirava a beleza à mesma, e desprezava o património, etc.

Dez anos passados sobre a campanha contra a nova ponte (mais curta e muito mais barata do que a defendida pelo fundamentalismo para S. Francisco – que, além do mais, teria de ser alta ou levadiça), vivemos a situação aviltante das péssimas condições da passagem entre as duas margens e continuamos a usar a obsolescência quase criminosa dos passeios da ponte de baixo.

Tripeiro não subordinado a grupos de pressão, aqui lanço o desafio: quem tem audácia, visão estratégica, dinâmica e sonho para, em nome dos verdadeiros interesses da cidade (das duas margens), avançar com a ponte pedonal que nos falta como o pão para a boca?

Helder Pacheco 2011


 
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