Recordação dos talantes

O direito de associação («reunião de pessoas para um fim comum») é princípio fundamental e espécie de pedra de toque, de acto cívico essencial ao bom funcionamento de uma democracia. Isto não significa a inexistência da possibilidade de exercer o associativismoem ditadura. Mas, como diria o anúncio, não é a mesma coisa. De facto, um direito tutelado, vigiado, controlado e dificultado não é livre, mas apenas consentido. No entanto, as perversões das democracias (algumas das quais não morrem de amores por um associativismo activo e interveniente), embora não o tutelando, dificultam-no através de IVA sobre o apuro do bar, apresentações periódicas de Declarações-Modelo A, preenchimento dos Modelos 22 e 23 do IRC, Mapas Recapitulativos e Contabilidade não atrasada mais de 90 dias, etc. Ou seja, a burocracia fiscal democrática é tão dificultosa e cega quanto a polícia política, já que não distingue o puro amadorismo por amor à camisola das associações profissionais.

Verdadeiramente amador, bairrista e espontâneo era o Grupo dos Talantes, que hoje recordo. Fundado em 1924, tinha sede na Rua de Aníbal Cunha, 8. Era uma associação de apenas 8, 10 elementos (empregados de escritório e de armazém, um bancário e outro estudante, com 12 anos!), moradores em redor do Campo Pequeno e na Lapa. Dedicavam-se à música sob a direcção do «maestro» Orlando Cunha, que tocava principalmente violino, embora dominasse os demais instrumentos: viola, guitarra, banjo, com que os companheiros o acompanhavam. Tinham sede em casa do «maestro» e também oficina do pai – a Alfaiataria Cunha – mas ensaiavam nos Arcos de Miragaia, mesmo defronte da Alfândega.

Actuavam em grupos cénicos populares e deslocavam-se – tudo “de borliu” – a representações no Burgo e arredores, bem como a pequenas festas familiares (sobretudo casamentos de família, amigos e amigos dos amigos). E foi precisamente a burocracia organizativa da Ditadura que matou “Os Talantes”, quando estes e outros agrupamentos foram obrigados a dispor de sede própria e a possuir estatutos aprovados – o que, no caso deles, era impensável. Oitenta anos depois, o último sobrevivente contou-me a história, com uma ponta de saudade e algum orgulho por ter sido o catraio do grupo.

Chamava-se este íntegro cidadão, tripeiro indefectível e convicto associativista, Noémio Lago de Oliveira, animador, entre outras coisas, do Clube de Campismo do Porto. Deixou-nos há tempos e com ele desapareceu um pouco (ou muito) do espírito profundo desta cidade. Recordá-lo é impedir que o silêncio e o esquecimento se abata sobre aqueles que, «longe das multidões ululantes» e das promoções (ou saldos) mediáticos, ajudam a manter o país não totalmente poluído (e não me refiro à poluição do ambiente biológico, mas à outra). Recordá-lo e a muitos da sua geração, pelo que procuraram construir, é, por isso, um imperativo cívico.


 
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