Red Bull

Carlos de Passos, portuense dos tempos em que os havia, defendendo a honra do Burgo, escreveu: «Longevo e tradicional é o desdém, quando não malquerença, dos governantes lisboetas pelos interesses do Porto, o qual, porém, sempre insigne e galhardamente soube dar lições de civismo e patriotismo à capital e aos administradores do país, sempre soube viver e progredir sem parasitar o Estado.»

A situação ultrapassou o grau da parasitagem para assumir o da sem-vergonha. O ventre da capital é insaciável. Aqueles que, na cantiga de Zeca Afonso, comiam tudo sem deixarem nada, passariam agora por meninos de coro relativamente ao apetite devorista que esmifra o país até ao tutano. Usurpa, transfere, desvia, centraliza. Do Porto para o Terreiro do Paço, levou banca, seguros, empresas, a Bolsa e o resto.

Nem a Red Bull escapou. Era demasiado visível. Atraía multidões e internacionalizava o Burgo. Confisque-se. Mas o ventre devorista não está satisfeito. Quer sempre mais, para alimentar o estômago e o PIB capitalino que virá a ser o triplo, quádruplo, quíntuplo que o das chamadas regiões.

O devorismo é antigo e atávico. Em 13-2-1880, o Ministro das Obras Públicas, Saraiva de Carvalho, publicava uma Portaria reconhecendo a pertinência de reduzir o número de funcionários pelo facto de, no seu ministério, existirem «empregados em número avultado e superior aos quadros legais, e a todos, ou quase todos, se abonavam e pagavam vencimentos superiores aos fixados nas leis.» O centralismo é o cancro corrosivo do país. Para manter o status necessita de domínio, fazenda e recursos. De onde? Das províncias. No seu livro “Aurora Adormecida”, Eva Cruz escreve que, nas Terras de Cambra, havia grupos que «chegavam a ser confundidos com quadrilhas que, constava, vinham de Lisboa».

Temos, portanto, os portuenses, de cerrar fileiras, estar alerta, pôr ratoeiras a fogo, para impedir os centralistas de se apossarem do que nos resta, para ser transferido para a capital. Preparemo-nos, pois, para o ataque aos próximos objectivos: Torre dos Clérigos, Igreja de S. Francisco, pontes Luís I e Maria Pia (tudo para expor no futuro Museu Imperial). Palácio da Bolsa (para sede do Clube Recreativo da Mouraria) e Salão Árabe (para recepções de comitivas de países democráticos como o Irão e delegações da Al Qaida e da Jhiad Islâmica). O Sealife será instalado junto do Oceanário, para venda de “fish-and-chips”. A Casa da Música substituirá o Pavilhão do Parque Eduardo VII. O IPATIMUP será deslocalizado para o Estoril e a Faculdade de Engenharia para a Amadora. A festa do S. João será transplantada para o Cais de Sodré e integrada no desfile das marchas de Lisboa. E a Livraria Lello será anexada ao C.C.B. O Coliseu irá substituir o Parque Mayer. Mas o roubo mais apetecido será transferir o F.C. Porto para a capital e, em chegando lá, extingui-lo – como é típico das estratégias centralistas -, para que os clubes imperiais passem a imperar. Acabar com o Estádio do Dragão e deixar, no seu lugar, o não-lugar com desemprego, exclusão e pobreza – como também é típico das políticas centralistas. E transferir o Porto de Leixões para a Ericeira, e o Aeroporto de Pedras Rubras para Cascais, onde receberá os jactos do “jel-set” da Linha.

Depois do que sucedeu com a Red Bull e a AIP, uma pela força e outra consentida, tudo é possível. Até o Vinho do Porto será deslocado para as bordas do Tejo e as vinhas do Alto-Douro reconstituídas, como Parque Jurássico, na Serra de Monsanto. E o néctar sublime, convertido – segundo a competência reformadora centralista – em zurrapa ou mata-ratos, chamar-se-á Vinho de Lisboa.

Ai, portuenses, ao que nós chegámos, pois como escreveu D. Francisco de Portugal (poeta seiscentista): «Calando se desonra quem com medo se cala.»! Ou, como dizia meu pai, honrado tripeiro e republicano impoluto: «Como tudo isto me mete nojo!»


 
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