Trabalho e honradez

Pessoa amiga enviou-me há dias, a relação de mais de uma dúzia de realizações em que, na actualidade, Portugal dava cartas ao mundo. E acrescentava: poucos dão atenção a isto. No entanto, é importante não passarmos a vida a autoflagelar-nos, divulgando o que fazemos de bom e mostrando os nossos valores.

Concordoem absoluto. Tenhodito e escrito que o país é – apesar de tudo – melhor do que as televisões mostram. Temos de reconhecer que a mediocridade, a boçalidade, a ignorância, a incompetência e a violência que nos entram continuamente casa adentro, através dos ecrãs (e muito do que vemos à nossa volta, quando andamos na rua) nos estão a distorcer ou a corromper a imagem de um país muito mais digno do que o panorama político e cívico que nos é apresentado e, pensando bem, não o retrata na sua integridade.

Fazendo jus a tal convicção, evocarei neste escrito um valor essencial em sociedade que se preze, aparentemente desclassificado, menosprezado e esquecido (mas que persiste e, por muitos, continua a praticar-se): o trabalho persistente e honrado. E nada melhor do que a realidade para o comprovar na história de um cidadão anónimo, sem tempo de antena para se exibir (como sucede com muita aldrabice), gaiense, de Grijó, por nascimento, portuense por afecto e portista por opção (tudo méritos).

Nasceu em 1934 e, aos 5 anos, já era moço de lavoura no lugar da Porfia. Aos 6, foi promovido a moço de trolha no chamado Bairro da Mata, a norte de Silvalde. Até aos 10 anos andou, acima e abaixo, diariamente, de Espinho para Grijó e vice-versa (incluindo sábados). Dos 10 aos 12, foi para a Escola, onde conseguiu chegar à 2.ª classe. Em 1946, com 12 anos, arranjou trabalho em Paços de Brandão, como moço de padeiro. Passou depois a caixeiro, interno na casa do patrão. Em 1951, fez a 4.ª classe na Vila da Feira (que ainda não tinha mudado de nome). Em 52, passou a corticeiro e pesou cortiça desde S. João da Pesqueira até Cuba (informação para quem estudou na escola mais recente: esta Cuba fica no Alentejo e não nas Américas). Em 1960 foi, finalmente, para Grijó, como empregado de armazém, até 1985, altura em que se reformou.

Todavia, como este cidadão exemplar não conhece derivas psicológicas ou traumas de infância, acrescentou à história que, «Graças a Deus», sempre gostou das coisas que ia fazendo. Por isso, de 1959 até 2009 tornou-se mediador de seguros. Tudo somado, perfez quase 70 anos dedicados ao trabalho. Sem mácula, mágoas, recalcamentos ou recriminações. Honrada e persistentemente, para, como se dizia, «levar uma vida limpa». Pelo meio ainda foi militar, no duro, 30 meses, desde o quartel de Arca d’Água até ao do Lumiar.

Se querem que lhes diga, acho que é a gente deste quilate que vai segurando o esqueleto e as articulações de uma construção colectiva chamada Nação. Ela resistiu aos séculos e, contra ventos e marés, sobreviveu e, apesar daquilo que lhe estão a fazer e do abismo para onde a estão a empurrar, há-de encontrar o rumo e o lugar a que tem direito no concerto das nações. (Nos tempos que correm, como eu admiro estes exemplos de dignidade e de coragem!)

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