Três Centenários

Para não pensarem que, com os debates, comentários de analistas e notícias da crise, fiquei toldado do raciocínio, queria fazer uma correcção. Alguns leitores até me falaram no assunto (sinal de que já não papam tudo quanto lhes dão a ler). De facto, o meu escrito aqui publicado nos idos de 30 de Dezembro chamava-se “Real de Água” não «Real Água», como apareceu titulado (nem eu, republicano, escreveria sobre o real líquido das entranhas monárquicas). Por outro lado, questionaram-me sobre a palavra audiovisual que, na factura da luz, acusara de escrita em mau português, e aparecia no texto igual à anterior. Por estranhos desígnios editoriais, onde eu escrevera (tal como na factura) audio-visual (digo audio, traço, visual) apareceu publicado «audiovisual». Aliás a factura energética contém dois erros numa só palavra: áudio, com acento agudo no a e separado de visual por um hífen. Consequências de se acreditar demasiado na tecnologia e menos na exigência de rigor. É a vida…

Falando de coisas positivas: em 2011 celebra o Burgo o centenário de três instituições de referência. Em 22.3.1911, por Decreto do Governo Provisório da I República, era criada a Universidade. Em data incerta de Setembro, alguns jovens fundaram o “Grupo de Estudantes” depois designado Académico Futebol Clube. E em 8.12 surgia o Sport Grupo, depois Sport Comércio e Salgueiros.

A fundação da Universidade é, comparando com a Europa, tardia e, na minha opinião, tal atraso teve custos consideráveis para o desenvolvimento industrial, científico e cultural do Burgo, que só a partir de 11.3.1837 dispôs da Academia Politécnica que esteve na base da Universidade. Curiosamente, o afã comemorativo e orgulho da cidade eram de tal ordem que em 1937, a Comissão Desportiva da Universidade do Porto solicitava ao Académico a cedência do Estádio do Lima para «um festival com a assistência do Presidente da República e membros do Governo, em comemoração do I Centenário da U.P.» (tratava-se obviamente dos 100 anos da Politécnica mas, para o caso, servia).

Com um século de vida, a Universidade portuense é símbolo para o futuro da Cidade. Quando conseguir – como é propósito – colocar-se entre as cem melhores da Europa, isso significará a esperança do Renascimento do Burgo (que passará inevitavelmente pela conjugação de factores como ciência, cultura, património, conhecimento – isto é, emprego e qualidade de vida – onde a Universidade desempenhará função essencial).

Do Académico só pode dizer-se que enfrentando procelas, crises, angústias, aflições e mortes anunciadas, chega ao séc. XXI de boa saúde, com projectos de vida e centenas de jovens usufruindo de verdadeira escola de desporto e civismo ao serviço do ideal chamado Bem Comum. Tal como a Universidade, noutro plano, o Académico – pela determinação e a coragem de sucessivas gerações que o construíram – é instituição que nos honra.

E, qual cereja no topo do bolo, falta que o velho Salgueiros consiga o golpe de asa da redenção e não esqueça a sua história (e que o Porto não ignore o quanto lhe deve). Hurra!, pois, pelos três centenários desta (nem) sempre leal mas, apesar de tudo, Invicta cidade.

Anúncios

 
%d bloggers like this: