Emoções urbanas

Nos tempos em que via o Burgo entre o afecto e a nostalgia, escrevi que a cidade é feita de lugares e emoções. E, apesar de tudo, para muitos tripeiros, assim permanece na essência de uma ligação das pessoas aos territórios de nascer e viver.

Infelizmente, os planificadores urbanísticos ignoraram tal princípio básico. O despovoamento do Centro Histórico e da Baixa, o arrasamento das Carvalheiras e o abandono das Fontainhas, Fontinha, Leal, Eirinhas, em vez da sua regeneração, e mais uma lista interminável do que não foi feito e poderia ter salvo o Burgo da implosão habitacional, provam a incompetência (ou incapacidade) de 70 anos de acções oficiais e privadas que quase conduziram à desagregação urbana do Porto.

E, como prova de que a cidade são lugares e emoções, escreveu-me uma leitora dizendo: «Quero que saiba que fui criada na Travessa das Eirinhas, 84, numa das moradiazinhas muito bonitas na época e onde existia um largo com um fontanário. Em cima, da janela do meu quarto, via a Igreja do Bonfim, o cemitério, ouvia o apito dos comboios e… algumas vezes o som dos vapores no rio… Acho que não estou errada. Mais tarde, numa grande jogada camarária, o senhorio vendeu as casas e centrifugaram os meus pais que, até hoje, sobretudo a minha mãe, nunca se refizeram. Tinham uma casa com todas as condições, nomeadamente de higiene e pagavam 400$00 de renda. Passei a infância e juventude entre a Trav. das Eirinhas e as Antas. É um pequeno resumo da minha vida. Frequentei a Escola da Junta e a Igreja do Bonfim, até casar. Desculpe incomodá-lo». De modo algum.

O que me incomoda é o facto de uma tripeira – tal como milhares de outros – ser forçada a viver longe do Porto e do chão dos seus afectos. E esta foi a tragédia que abalou, até hoje, os fundamentos de uma cidade feliz.

2013©HelderPacheco

Anúncios