Ser europeu

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Ser europeu

A antiga freguesia de S. João da Foz publicou o seu “Roteiro Literário”. E digo «antiga freguesia», mas apetecia-me dizer «paróquia», o que seria equívoco quanto à iniciativa da publicação. Digo, pois, «antiga», quer pela lonjura histórica, quer pelo facto de – portuense não dado aos minuetes da Corte – jamais aceitar a reunião / união e casamento contra-natura, na Invicta, em certos casos, de entidades com milénios de História.

Pois, agora que a Foz celebrou os autores que nela nasceram ou viveram, talvez seja altura de o Porto repensar a obra feita em matéria de homenagens e reconhecimento dos seus escritores, artistas, cientistas, políticos e demais vultos que se destacaram no Burgo e no País. E, mais do que repensar, fazer um acto de contrição pela ingratidão, omissão e desleixo que tem cometido.

Explicando: desde 19.11.2016, no n.º 20, da Rua Ernest Cresson, no Bairro de Montparnasse, por iniciativa da Câmara de Paris, foi descerrada uma placa, onde se lê: «Aqui viveu e trabalhou o Pintor Português Amadeo de Souza-Cardoso (1877-1918), um dos precursores da arte moderna». Sendo embora estrangeiros, os países cultos celebram assim os vultos maiores que também os prestigiam. Recordando-os. E, nesse aspecto, as cidades francesas são exemplares.

No Burgo – ai de nós, pecadores, ávidos de verniz -, em matéria de placas vamos mal. A da casa de António Nobre foi surripiada. As dos mestres das artes nacionais, Artur Loureiro e Silva Porto, no Bonjardim e na Ponte Nova, definham à míngua de atenção, em casas degradadas, e um dia destes vão-se. E, sobretudo, faltam consagrações assim, tão simples aos muitos (portuenses ou não) que aqui viveram e ajudaram a construir uma Pátria e uma cultura. Mais do que «melhor destino», teremos de fazer do Porto uma cidade europeia?

©helderpacheco2017

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Delírios de imaginação

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Delírios de imaginação

Disse-me um amigo que devo andar mal disposto por escrever crónicas frequentemente azedas. Se calhar tem razão e achei algumas explicações para tal: 1.º Leio e releio Eça e Ramalho, cujo sarcasmo construído com humor me influencia; 2.º As telenovelas políticas criadas a propósito de tudo e de nada fazem-me, por vezes, duvidar deste país; 3.º O nível da presidência norte-americana (país que admiro), na luta entre a peste e a guerra, faz-me duvidar do futuro do mundo. De qualquer forma, prometo emendar-me e cronicar sobre coisas sérias.

Para isso, hoje comentarei um folheto que trouxe de França intitulado: «Montmarte: uma aldeia em Paris». Nele, lê-se: «Das sete colinas que rodeiam Paris, a de Montmarte deve a originalidade à sua configuração e à natureza do seu subsolo.» E ainda: «Conscientes do carácter excepcional desta aldeia parisiense, quatro hotéis de charme conceberam, com a ajuda dos comerciantes do bairro, este pequeno guia com o objectivo de nos ajudar a darem os primeiros passos na colina» (onde a «aldeia» se situa). A publicação inclui a história do sítio, mapa das ruas, localização do comércio tradicional, galerias, museu, etc. E ainda fotos e gravuras, antigas e actuais.

Viciado em delírios de imaginação, pus o inventómetro a adaptar o conceito ao Porto. Para promover a qualidade cívica do Burgo, desenvolvendo planos de reabilitação urbana, social e cultural, aproveitando recursos existentes, imaginei o potencial do carácter, identidade histórica e boniteza ambiental de locais ou bairros ou comunidades como a Foz Velha, S. Pedro de Azevedo, Monte da Lapa, Arrábida, Vale de Massarelos, Vale de Campanhã, Rego Lameiro / China / Nova Sintra, Vale de Miragaia… E dei por mim a murmurar: «Jesus! O que esta cidade ainda tem para dar e vender!»

©helderpacheco2017

A lição do pretinho

•19/11/2017 • Comentários Desativados em A lição do pretinho

Cristopher Lasch escreveu: «Uma cultura verdadeiramente moderna nunca se resumiu ao simples repúdio da tradição; pelo contrário, é da persistência dela que retirou grande parte da sua força». Estas palavras ajustam-se a uma cidade que se vê confrontada com a mudança. Que, ancorada na História da sua identidade, sofre o assalto da transformação e, aspirando à novidade, teme perder a alma.

O receio da quebra das referências que moldaram as comunidades no espaço urbano parece-me, todavia, um falso problema. Porque as modificações são possíveis sem trair o essencial. O carácter, a marca, a distinção. E a prova disso é o emblemático “O Pretinho do Japão”. Fundado há 70 anos, era sobrevivente da época em que as lojas do género adoptavam nomes exóticos como “Pérola de Nankim”, “Casa Oriental”, “Casa Xangai”, “A Pérola da Guiné”, etc. Ao longo do tempo vendeu de tudo, do bacalhau aos chás «à grama», do «melhor café» aos vinhos sortidos, dos arrozes aos frutos secos. Um mundo comestível. A granel.

Pois o «Pretinho» mudou de mãos e transformou-se de loja tradicional, à antiga, em loja tradicional à moderna. O quintal degradado converteu-se em jardim de aromáticas, esplanada e excelente recinto interior onde se lê: «Welcome to Paradise». Da loja da rua ao «Paraíso» das traseiras tudo é diferente, mas o espírito do lugar permanece intacto. Vende o mesmo, mas ampliado e renovado. E a mercearia continua fina. As montras e o símbolo habituais (o Pretinho carregado de embrulhos evolando-se no vapor aromático do café) lá estão. Como sempre.

Afinal no Bonjardim antigo encontramos a resposta à questão existencialmente gritada por aí: o Porto perde a alma? Com exemplos assim, associando inteligência, iniciativa e cultura, a resposta é fácil: só se deixarmos que isso aconteça.

©helderpacheco2017

Maria Ruth

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Maria Ruth

As más notícias chegam pelos jornais ou pelo telefone. Como se fala pouco, raramente chegam em conversas. E com a indústria moderna chegam-nos informaticamente. Foi o caso. Recebi a notícia lacónica. A doer: «Morreu Ruth Escobar.» E depois: «Um ícone do teatro brasileiro, que revolucionou. Militante cultural e cívica. Uma força da natureza. A doença de Alzheimer, que a apoquentava há longos anos, logrou aquilo que nem a Ditadura Militar conseguiu: silenciou-a.»

Para os tripeiros, ela reveste especial simbolismo: nascida em Campanhã, de família operária, em 1935, aqui viveu com a mãe até 1951, quando emigraram para o Brasil. Expoente teatral daquele país, fundou a Companhia Novo Teatro e criou o Teatro Popular Nacional. Mulher de causas, combateu censores e opressores. Em 1973, veio ao Porto apresentar a peça “Miss Leiga”, no Rivoli, cuidadosamente vigiada pela Pide.

Apesar da distância, Ruth manteve da Invicta memórias de lugares e da gente. Na sua Autobiografia (1987), delas escreveria páginas deliciosas: «Lembro-me do trajecto invariável de todos os dias: da Rua do Bonjardim subo a João das Regras, atravesso a praça da República, desço a Rua dos Mártires da Liberdade e entro na Praça Coronel Pacheco – onde ficava o Liceu Carolina Michaëlis [que frequentou]. (…) E o trajecto para a praia, o trajecto a pé até à Praça da República onde esperávamos o carro eléctrico (…) dava voltas na Rotunda da Boavista e descia uma avenida imponente, com palacetes e árvores monumentais até à foz, até o mar». E fala do S. João «com o alho-porro» e da Rua Santa Catarina: «a Hollywood com suas lojas finas, finíssimas». Além de evocações de uma fidelidade sem mácula.

Por tudo isto e o mais desta cidadã admirável, ficaria bem à sua cidade natal homenageá-la em nome de rua. Acho eu.

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Para o mundo

•19/11/2017 • Comentários Desativados em Para o mundo

Como dizia o internado no Conde de Ferreira: «Sou maluco, mas não sou burro», também posso afirmar: «Sou portista, mas não sou burro». Nem cego. Tenho olhos na cara, conheço mundo e procuro usar a cabeça para pensar justo.

Posto isto, só podemos – os que amam a cidade não de letra, mas de coração – sentir-nos orgulhosos com o Museu Futebol Clube do Porto. E os que amam a cidade não precisam de ser portistas para perceber as razões. Ei-las: em 2015, foi distinguido com o Prémio Inovação e Criatividade pela APOM (Ass. Port. de Museologia) e começou a liderar o ranking da avaliação de Museus no TripAdvisor (o maior website de viagens do mundo), que o posiciona no top 10 das atracções oferecidas pelo Burgo. Em 2016, foi nomeado (com outro museu) para Museu Europeu do Ano e recebeu o grau de Excelência, do TripAdvisor.

E, cereja em riba do bolo, em Setembro tornou-se, por decisão da Agência da ONU (UNWTO) responsável pelo sector, o primeiro Museu desportivo do mundo a integrar a Organização Mundial do Turismo. É obra! Se juntarmos a isto o facto de, em 2016, 40% dos visitantes do Museu serem estrangeiros, podemos desenhar um quadro expressivo do seu papel, valia e significado para a Invicta.

Quais as razões? Ei-las: 1.º na renhida competição entre cidades europeias (mais do que entre países) pela afirmação e atractividade, o Museu FCP tornou-se um poderoso motor de qualificação do Burgo; 2.º constitui, por isso, um factor relevante de competitividade; 3.º estas são mais-valias essenciais numa cidade e num mundo em que quem não se afirma internacionalmente fica para trás. E, sobretudo, distinguir o Porto pela qualidade e a categoria é maneira saudável e digna de aumentar a auto-estima dos portuenses. Dos verdadeiros, bairristas e orgulhosos de tal condição. Acho eu.

©helderpacheco2017

O Cruzinho

•19/11/2017 • Comentários Desativados em O Cruzinho

O Bairro do Cruzinho saltou para a ribalta da imprensa e da atenção pública. Não é de todo inesperado, porque há muito se adivinhava o apetite devorador que certo empreendedorismo sempre manifestou. O que se passou com o bairro dos Marinhos é exemplar da transformação não de sítios industriais em condomínios (que se entende como natural), mas de habitação social em habitação de luxo. Nos bairros da Parceria e Antunes, a transição ainda se fez para habitação social e um hospital (CMIN). Quanto ao resto, assistimos ao desmantelamento dos Bairros do Leal e das Eirinhas e ao arrasamento do das Carvalheiras. E outros. Ali ficou a não-cidade.

Há tempos, recebi de um morador nascido e criado no Cruzinho longa carta chamando-lhe «Bairro de Mortos, não cemitério, mas bairro de mortos, porque no cemitério não há recordações de nada nem de ninguém e aqui há». E fala do bairro dizendo: «era uma alegria e uma animação nele viver! Éramos cerca de duzentas pessoas nas suas 49 casas (…) vivíamos uma vida simples, alegre, às vezes sofrida mas sempre muito participada.» E mais coisas.

Na cidade, os bairros operários contavam-se por dezenas e hoje poucos restam. Constituíam comunidades organizadas solidariamente na alegria da festa e na tristeza do luto e da adversidade. As suas tipologias afirmavam um saber construir e saber viver em territórios estruturados na lógica de estreitas relações de vizinhança. Representavam a cidade inclusiva e fraterna funcionando «ao nível do rés-do-chão». Para quem soubesse ler as lições da História, poderiam ser o fermento de uma atitude de moderna engenharia social ao serviço da população sobrevivente ou de nova população em espécie de ponte para o futuro. E, como diria o Professor Marcelo, não perceber isto é não perceber nada de nada. No Porto.

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No lagarteiro

•19/11/2017 • Comentários Desativados em No lagarteiro

Em St. Albans (Londres), há uma azenha a moer e, dentro, uma casa de chá serve scones cozinhados com a farinha própria. E, no subúrbio de York, há o moinho de vento de Skidby, famoso pela farinha que produz. E, na Suécia, em Torvsjo, há moinhos de água a moerem. E, em Estocolmo, indo para o Aeroporto de Bromma, vêem-se moinhos de vento. E, em Umea, Vasterbotten, há moinhos de vento. Sem falar nos da paisagem holandesa. Etc. E, em Gaia, no Parque Biológico, existe um moinho de rodízio activo.

As Memórias Paroquiais de Campanhã, de 1758, indicam, nos rios Tinto e Torto, 58 moinhos. Alguns chegaram até nós. No Pego Negro, Tirares, Lagarteiro, Azevedo e Fatum. No milénio passado, levei responsáveis camarários ao de Tirares, para os convencer a integrá-lo no património municipal como centro interpretativo e pedagógico. Debalde. Não sendo perfomance, happening, não é cultura.

Pensei que o Parque Oriental incluiria a conservação de aldeias, lugares, moinhos, paisagens agrícolas em espécie de Open Air Museum (superior a Beamish e outros, porque não artificial). Espaço milagrosamente conservado, poderia constituir enorme recurso estratégico para a afirmação turística da cidade.

Passei há dias no Lagarteiro. Encontrei o sítio todo revolvido e um caterpillar em acção. Percebi depois que se tratava da «construção do Interceptor do Rio Tinto», destinado a «Proteger o ambiente e promover a eficiência de recursos» (custo 9 257 584.40 €). Com tanto dinheiro, técnica e tais palavras, estou para ver o que sai dali em matéria de «protecção» do ambiente cultural do sítio. Para já, saiu mal: o moinho do Lagarteiro, ao lado da ponte, sumiu. Evaporou-se a golpes de progresso. E temo que Tinto acima a mesma «promoção da eficiência» arrase os outros que sobrevivem no Vale de Campanhã.

©helderpacheco2017