Revista Evasões – 15/2/2019

•2019-02-15 • Comentários Desativados em Revista Evasões – 15/2/2019

Evasões 001

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REVOLUÇÃO NOS PACOTES

•2019-02-15 • Comentários Desativados em REVOLUÇÃO NOS PACOTES

Nos tempos em que a parolice imperava na rêdea solta do novo-riquismo, havia uma frase típica de tal mentalidade. Algo moderno era: «Estilo design». Não significava nada, porque o design é a adequação de uma forma à sua função e possui enorme impacto na nossa vida, repleta de objectos.

Há bom e mau design, conforme as formas que utilizamos se adequem ao seu funcionamento. Por exemplo: havia um serviço de café, cujo designer, a armar ao vanguardista, desenhou as chávenas de tal modo estreitas na base e largas em cima que quando as enchíamos caíam para o lado. Uma anedota saída de prestigiada fábrica.

A comercialização do leite em pacotes foi sempre, para mim, um mistério no que toca à sua abertura. Num canto dizia: «Abertura fácil». Tentei tudo à mão e com faca para os abrir no tal sítio. Jamais consegui. Acabava por lhes fazer um buraco tesourando-os no ângulo e depois era certo um esguicho inicial. Devo ter, ao longo dos anos, esguichado litros, na miragem da abertura fácil. O designer que inventou aquilo devia ser detido pelos danos causados à Humanidade.

Pois assistimos a verdadeira revolução. Finalmente as grandes empresas do ramo descobriram a aldrabice e a dificuldade da abertura dos pacotes do nosso descontentamento. E lançaram no mercado uma embalagem com rolha de parafuso que é uma delícia útil e funcional. Um mimo. Reconheçamos: tantos anos para perceber o que é abertura fácil, é demasiado. Ou o mercado é pouco inteligente ou estava interessado nos esguichos, que aumentavam o consumo. Hurrah!, pois, pela revolução na abertura dos pacotes do leite.

©helderpacheco2019

DO PROGRESSO

•2019-02-15 • Comentários Desativados em DO PROGRESSO

Como a cidade permanece viva, corre por aí notícia alarmante. Conversas, comentários na internet e não sei se nos jornais anunciaram o fim do Café Progresso. Diziam ser o mais antigo do Burgo, inaugurado em 1899 (o meu dedo mindinho, que guarda o não esquecido, diz-me que o mais antigo, não sei se ainda vive, será o Café Brasil).

Além de, durante décadas, ser o «café dos Professores» (da Politécnica e da Universidade), o Progresso era venerado pela qualidade do seu café de saco. Dizem – isso não sei – que terá sido dos primeiros a servir o expresso da La Cimbali (crismado «cimbalino».) Corre por aí é que o Progresso – recentemente renovado – vai fazer uma plástica onomástica, num ímpeto de modernismo, passando a chamar-se Cafeína Downtown. De Progresso faz-se Retrocesso. Para se renovar cosmopolitamente, o Porto, não precisa de se abastardar. Deve ser coerente: conciliar a tradição com a transformação. E os nomes antigos significam identidade e memória. Representam o espírito dos lugares e as heranças de gerações. Exaltemos tudo quanto qualificar e ajustar a cidade aos padrões do melhor. Mas um valor chamado tradição exige respeito. A modernidade não se adquire trepando pelas paredes. E ainda menos apagando do sentimento público as referências a um território de lembranças.

Trocar o nome Progresso por Cafeína Downtown é bom exemplo do provincianismo contemporâneo. O desrespeito pelo ser portuense. (A menos que a transação do negócio não o incluísse ou a transmissão do nome tenha sido negada pelo vendedor – o que às vezes acontece. Se assim for, retiro o que disse.)

©helderpacheco2019

Aniversário

•2019-02-15 • Comentários Desativados em Aniversário

Bolos de aniversário oferecidos pelos Alunos do Instituto D. António Ferreira Gomes (Esq.) e pelo Chef Hélio Loureiro (Dir.).

SÓ PALAVRAS

•2019-02-07 • Comentários Desativados em SÓ PALAVRAS

Tenho orgulho em ser portuense. Isso não me impede de criticar os defeitos e incongruências de que o Porto dá mostras. E um dos piores chama-se ingratidão. Existem dezenas de personalidades perante as quais a cidade mantém a dívida de serem lembradas. Celebradas. Mas não. Sobre elas paira o esquecimento.

E uma dessas figuras chama-se Avelino Tavares. Portuense do coração teve a coragem de, em 1969, num país cinzento e amordaçado, editar uma revista dedicada à divulgação das músicas «do nosso descontentamento» e de autores e intérpretes que contribuíram para arejar o ambiente cultural e abrir janelas sobre o mundo ao nível do melhor que havia. O “Mundo da Canção” permanece, no campo da divulgação e dignificação da indústria e do espectáculo musical, como um dos acontecimentos mais relevantes do Burgo.

Mas o Porto e o país devem mais a Avelino Tavares. Trouxe até nós o brilho de Ferré a Paco de Lucia, de Gal Costa a Nara Leão. (Abriu-me os ouvidos para figuras como Ivan Lins, Pat Metheny e, num concerto memorável no Rivoli, o incomparável Astor Piazzolla). Além de ter apoiado número incontável de intérpretes portugueses (Carlos Paredes, José Afonso, Fausto, José Mário Branco, Rui Veloso e muitos mais), produziu, organizou e divulgou o Festival de Jazz do Porto, 17 edições do Festival Intercéltico, o Matosinhos Jazz, o Funchal Jazz, o Gaia Blues Festival e o Praia Blues.

Como um JN inteiro não chegava para contar quanto o Avelino fez em prol da comunidade, aqui lhe deixo um preito de homenagem. Vale pouco. Só palavras. Mas é o que tenho para demonstrar a minha gratidão.

©helderpacheco2019

INSISTINDO NOS COMBOIOS

•2019-02-07 • Comentários Desativados em INSISTINDO NOS COMBOIOS

Surpreso, recebi um folheto editado pela CP, publicitando a viagem no comboio histórico do Vouga, entre Aveiro, Macinhata do Vouga e Águeda e regresso. Esfreguei os olhos: estarei sonhando?

Isto porque, depois do que sucedeu, por aí fora com linhas consideradas obsoletas, não-rentáveis, inúteis e, por isso, abandonadas (em alguns locais até lhes roubaram os trilhos), a CP, aproveitando este troço que escapou, fez aquilo que, em alguns países, é um recurso turístico de sucesso. Na Inglaterra existem dezenas de linhas históricas para recreio dos viajantes interessados em conhecer a Albion característica e pitoresca. São um sucesso.

Num país que recebe gente como nunca, factura milhares de milhões com isso, algumas linhas abandalhadas, seriam uma mais-valia importante para o interior que precisa de desenvolvimento como de pão para a boca. Estão a imaginar, a partir do Porto, comboios históricos cobrindo o Vale do Tâmega. Conhecer Amarante. As linhas do Corgo e do Tua. Ir até Vidago, Vila Pouca, Chaves. E mais acima – por que não? – Miranda. E, a partir de Espinho o Vale do Vouga.

Oferecer, das janelas do comboio, o Outono no Douro. Não seria excelente oportunidade para mostrar aos milhões de visitantes que, além de haver mais Porto do que as Ribeiras, haver um Portugal irresistível?

Enquanto lá fora converteram as suas ferrovias históricas em contributos para o enriquecimento local, por cá, na melhor das hipóteses, construíram percursos pedonais, na pior encontramos mato, silvas e estações (que eram encantadoras) em ruínas. Como diria Vinicius: «Ó Insensatez!»

©helderpacheco2019