OUTRO CERCO?

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

O país, fora os que queriam praia, enfrenta a tragédia com maior categoria do que a de alguns senhores do mundo. E a cidade – longe do Algarve – correspondia ao confinamento. Civilizada e solidariamente. Apareceram dezenas de pessoas oferecendo-se para fazer as compras de vizinhos doentes, idosos ou inválidos. E também para passear animais, ajudar com crianças e serviços domésticos, desinfectar espaços comuns e elevadores, etc. A cadeia interactiva ganhava forma diariamente.

Até sucediam actos inesperados: uma rapariga guineense disse-me que ia para o trabalho e viu parar um automóvel a seu lado. A senhora que o conduzia perguntou-lhe se tinha desinfectante. Respondendo que não, recebeu um frasco de álcool e luvas, com a explicação: «Temos de ser uns para os outros.» E, tal como veio, a condutora desapareceu. Espantoso! Mas a fotografia deste «unidos venceremos» estragou-se. Inesperadamente.

Até recebi a seguinte mensagem de um leitor: «As coisas vão mal em Lisboa. E mais se nota quando “há um autarca lá nas províncias que teima em lembrar-se de fazer coisas antes da gente! Mas nem é de lá de baixo, nem pertence à “entourage”. São dois defeitos juntos”. A título informativo: os números estão mesmo baralhados. (…) Anunciaram que iriam fazer um programa de testes nos lares de Lisboa e Vale do Tejo. Só hoje? Que os façam e vão ver quem precisa de cordões sanitários.»

Apesar dos apelos à união, alguém «lá de baixo», antes de nos condenar ao cerco, devia contar até 50, como dizia meu pai – homem sábio -, que também acrescentava: quem não se sente não é filho de boa gente.

©helderpacheco2020

Carquejeiras – As Escravas do Porto

•2020-04-28 • Deixe um Comentário
Desde 1928 a 1951 existiram 210 metros na cidade do Porto onde o trabalho da “besta” foi substituído pelo ser humano.
Quem via aquelas mulheres carregadas com 144 molhos de carqueja chamava-as de “ouriços humanos”.
Documentário de Arminda Sousa Deusdado sobre as carquejeiras do Porto, mulheres esquecidas que durante o séc. XIX início do séc. XX faziam chegar à cidade a carqueja que descarregavam dos barcos acostados às margens do Douro.

CERCADOS

•2020-04-28 • Deixe um Comentário

A quarentena não é estranha à cidade, bem como resistir a uma epidemia durante meses, cercada pela tropa e isolada do país. Assim aconteceu, em 1899, com a peste bubónica que infectando apenas 363 pessoas provocaria 132 mortos (36.36%)! O controlo (ou cordão) sanitário foi imposto pelo governo (alguns pensam num ajuste de contas com a cidade que fizera o 31 de Janeiro, outros que o Porto sofreu um revés económico de que nunca se recompôs).

Está para se compreender a razão porque a cidade das transformações cívicas, se mostrou tão contraditória e reaccionária na crise de 1899. De facto, enquanto uns apoiaram as medidas sanitárias propostas por Ricardo Jorge (e a epidemia pôde ser contida), outros portaram-se de forma absurda perante a gravidade da situação.

Ricardo Jorge seria ridicularizado como «inventor da peste» e alguma imprensa considerou-o impostor. Seria enforcado em desenhos colados nas montras, numa reunião dos sectores económicos, no Palácio da Bolsa, a quarentena foi rejeitada e Ricardo Jorge vilipendiado. Dois ou três clínicos apressaram-se a declarar a inexistência da bubónica na cidade, como absolutamente impossível.

Parece evidente que os motivos se prendiam com a gravíssima crise financeira e consequentes falências e desemprego daí advindos, provocadas no tecido industrial e comercial portuense. Mais do que a ignorância, em cidade de boas contas, o factor económico sobrepôs-se à racionalidade. Mas o Porto sobreviveu. Pagou caro e, reconhecendo a razão de Ricardo Jorge, passou a tomar a sério questões como abastecimento de água, saneamento e habitação.

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DO PAPEL HIGIÉNICO

•2020-04-28 • Comentários Desativados em DO PAPEL HIGIÉNICO

Durante a II Guerra Mundial, entre 1939 e 45, embora o país tivesse sido poupado, a população do Burgo suportou dificuldades inimagináveis. E aguentou-se, estoicamente, perante a falta de quase tudo, de alimentos a medicamentos e combustíveis. E as carências prolongaram-se para além de 45.

Muita gente (que não tinha horta para cultivar, nem porco para matar) passou fome. E, alguma, literalmente, morreu de fome. Para a maioria foi o tempo das bichas do pão, do azeite, do arroz, da carne, do açúcar, do petróleo, etc. Mal constava que em tal sítio os havia, lá estava o povo à porta, em filas às vezes à volta do quarteirão. Nas madrugadas frias e nevoentas do Burgo.

Havia, no entanto, gente reles que se governava à custa das carências dos outros: os candongueiros. Com conivências muito suspeitas, armazenavam produtos que vendiam a preços só acessíveis a bolsas fartas. Eram, obviamente, odiados.

Outros exemplares do oportunismo foram os açambarcadores. Através de artimanhas enchiam as despensas, «para o caso da guerra cá chegar». Enquanto isso, a maioria, cingia-se ao que o racionamento lhe permitia. O açambarcador era, obviamente, odiado.

Os seus descendentes andam, por aí, a armazenar alimentos e esvaziar os supermercados, não sabendo comportar-se dignamente em tempo de crise. Mas são getas finos: não bebem água da torneira, esgotam os garrafões. Não limpam o rabo a qualquer papel (durante a II Guerra, usava-se o jornal), esgotam o higiénico. E ninguém tem coragem para dizer: basta! Só levam xis por cabeça e vigiados pela polícia como assaltantes da nossa casa comum.

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DO PASSADO

•2020-04-28 • Comentários Desativados em DO PASSADO

L.P.Hartley escreveu: «O passado é um país estrangeiro. Lá, as coisas sucediam de maneira diferente.» Quem considera o passado o Paraíso Perdido, onde tudo era bom, deveria conhecer como, no Porto, as coisas aconteciam. Reproduzo o Decreto 6155, de 1919, através do qual o Ministro do Trabalho, José Domingues dos Santos, propunha soluções para uma realidade ultrajante. E, no intróito, traça o retrato da situação: «Considerando que a construção dos Bairros Sociais constitui necessidade urgente e representa uma medida que a crise económica, cada vez mais apavorante, exige que seja de imediata realização; (…) que essa construção vem atenuar a escassez de trabalho que entre nós se está acentuando, especialmente no Porto, onde se encontram mais de mil operários em “chômage”; (…) que grassam no país, designadamente no Porto, endemias que frequentemente assumem proporções de grande gravidade que, a não serem combatidas (…), com a promulgação de providências radicais se agravarão, pondo em sério risco a saúde pública, sobretudo a das classes laboriosas, menos defendidas, pelas suas precárias condições de vida, do contágio da doença (…)» E decretava a expropriação da Quinta da Granja, em Lordelo, para «entrar imediatamente na posse» da entidade responsável pela construção de Bairros Sociais.

Na anarquia da época, o governo cairia em 15.1.1920, sem adquirir a quinta e construir o que pretendia. Mas o diagnóstico ficara naquele Decreto comprovando que fizemos um longo exercício de desenvolvimento em democracia para nos libertarmos deste passado. Ainda não totalmente.

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DÍVIDA SALDADA

•2020-04-28 • Comentários Desativados em DÍVIDA SALDADA

Finalmente a cidade acertou as contas com a sua história, pagando uma dívida. Mas não toda a cidade. Parte dela continuou indiferente à tragédia que, durante um século, era o pano de fundo da desumanidade que atingia certas mulheres. Refiro-me às carquejeiras que, Corticeira acima, carregando 50 ou mais quilos de carqueja, subiam os 22.3% de inclinação proibida aos animais.

O calvário não terminava quando chegavam ao alto da calçada, nas Fontaínhas. Aí dessedentavam-se, descansavam num banco de pedra e ala, carga às costas, até aos locais de entrega onde a acendalha de fornos, fogões e lareiras era necessária. Vezes ao dia, todos os dias, meses, anos. Sob o olhar de uma cidade liberal e democrática…

Havia, no entanto, quem tentasse obstar à situação. Desde 1928, a Liga Portuguesa de Profilaxia Social fazia-o com afinco. E, à falta de resposta, em 1951, publicou um livro-choque sobre o assunto. Não seriam, todavia, medidas sociais a eliminar este drama, mas as mudanças surgidas com o abandono da lenha e do carvão como combustíveis. Ficou a lembrança do heroísmo e da ignomínia.

Foi essa a força vital que animou um grupo de portuenses para erguerem o monumento àquelas mulheres, no local do seu fadário. Custou anos de esforços e incompreensões, mas nunca lhes faltou a vontade. Com o apoio da Junta de Freguesia do Bonfim, que suportou materialmente o que parecia inultrapassável, a estátua do Escultor José Lamas foi, finalmente, inaugurada. O sonho desta gente limpou a face da cidade e redimiu a vergonha chamada ingratidão e esquecimento. A sua tenacidade honra o Porto.

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CEM ANOS

•2020-04-28 • Comentários Desativados em CEM ANOS

Um século é muito tempo, quando ao serviço do Porto. E, na realidade do associativismo tripeiro, poucas colectividades se podem gabar disso. Vão resistindo as que superaram adversidades, transformações sociais, perda de população e consequentes alterações da sua base de sustentação. O mundo mudou e a cidade também e muitas instituições não souberam (ou não puderam) ler esses sinais. As que o fizeram sobreviveram e algumas remoçaram.

É o caso do Sporting Clube Vasco da Gama, fundado, em 20.02.1920, na Rua 6, casa 7, do Bairro Herculano, por operários que procuravam preencher os tempos livres através do desporto (fenómeno em ascensão, que entusiasmou o Porto). Direccionado para o ecletismo, só a partir de 1933 o Vasco adquiriu a vocação de clube de basquetebol, onde viria a ser, nos anos 40, o «dream team» à escala nacional.

No final dos anos 50 conheceu uma das maiores crises, quando a política de apoio ao desporto da Câmara do Porto liquidou os recintos dos dois clubes da Sé: Vasco (o Parque das Camélias) e Fluvial (o de Duque de Loulé). Mas resistiram e o Vasco (com a ajuda dos amigos), de casa às costas, foi vivendo até que, em 1975, um grupo de sócios reocupou o que restava do Parque das Camélias. E culminaria a saga heróica com a mesma (quero dizer, outra) Câmara a ajustar as contas com a História e a decência construindo-lhe o primeiro pavilhão, que ganharia o nome de «Oficina de Basquetebol Alves Teixeira», glória do Clube e presidente emérito ao longo de décadas.

Mas outros souberam continuar o seu legado. Deles podemos dizer que honram a cidade. Que vivam pois.

©helderpacheco2020