Reconciliar o quotidiano

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Reconciliar o quotidiano

Nos idos de 2013 lia os cartapaços da Irmandade dos Clérigos quando o fantasma que, segundo o mito, vagueia na Torre me pregou uma partida. A culpa foi minha. Em vez de permanecer no Cartório, meti-me a explorar uma escadaria de madeira, escura e mal amanhada e malhei de cabeça.

Com a ajuda dos anjos da Vitória, de N.ª S.ª da Assunção e do Prof. Rui Vaz, salvei-me de um Hematoma Subdural Agudo e regressei à vida. Foi o primeiro milagre. Encontrei o segundo, voltando ao Complexo da Irmandade: Hospital dos Clérigos, Salão Nobre, Casa do Despacho e Cartório. Milagre de iniciativa, decisão, modernidade, à altura do nosso Tempo. Dando sentido à ponte entre tradição e inovação. Herança e mudança. Honrar o passado celebrando o presente.

E onde, na descida aos infernos, vira abandono, degradação e teias de aranha, descobri a Igreja, o edifício da Irmandade e a Torre reabilitados ao centímetro. Ao pormenor. Novíssimos em folha. Para todos. Com acessibilidades disponíveis aos deficientes, incluindo uma Sala onde quem não pode subir à Torre pode ver o Porto «lá de cima», nos sete monitores que o transcrevem.

E a Igreja é esplendor. A Santa Parentela (a família de Jesus Menino) reencontrou a graça e o Salão Nobre é repositório de arte. Mas o meu espanto vai para a transformação da antiga Enfermaria na notabilíssima exposição de imagens de Cristo doadas à Irmandade. E, nesta Colecção Christus, um conjunto exemplar é dedicado aos Passos da Paixão. O drama, a ternura, a emoção. Não admira que alguns visitantes se comovam até às lágrimas.

E nem admira que o projecto de restauro dos Clérigos tenha vencido o Prémio Europa Nostra 2017 para o Património Cultural. Sai-se de lá reconciliado com o quotidiano e a pensar: «Caramba! Afinal o mundo ainda é melhor do que parece!»

©helderpacheco2017

Do País estrangeiro

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Do País estrangeiro

Andou no meu bairro o homem da flauta pânica. Tocando. O som atravessava os interstícios urbanos e chegava-nos, dum outro mundo. Dum outro tempo e doutra civilização. A da convivência, ao nível do rés-do-chão, quando todos se conheciam e não prescindiam da visita da padeira, da leiteira, da peixeira, da lavadeira, da farrapeira, da mulher da esfrega, do limpa-chaminés, do cobrador das associações, lutuosas e clubes. E do carteiro. A humanidade batia-nos à porta.

O homem da flauta pânica anunciava-se à distância, na estridência musical que o distinguia dos demais pregões. Era o amolador de facas, tesouras, navalhas e canivetes. De quanto cortasse. E reparador de guarda-sóis (ou guarda-chuvas), especialista em varetas.

O homem da flauta pânica é espécime raro. Um vulto perdido na paisagem, mas não a que lhe dava sentido, pano de fundo e cenário. É avis-rara. Recordação. Lembrança da cidade amável, significante. A cidade da cultura das ruas. Comunicativa, face a face. Dos sinais não estereotipados. O homem da flauta pânica pertence ao mesmo mundo, em vias de extinção, dos cauteleiros (ainda param, um ou dois, em Sampaio Bruno, apregoando a Sorte Grande desta semana). São os últimos pregoeiros. Os restos de um passado perdido na distância que, em cada dia, nos separa daquele (citando Hartley) país estrangeiro onde as coisas sucediam de maneira diferente.

Da próxima vez que o homem da flauta pânica ande por aí, a anunciar-se e a pedir que alguém lhe dê trabalho, tenho de arranjar o que quer que seja para o ajudar a ganhar o pão. O problema é que, com os cortantes de cerâmica, já não tenho em casa facas à antiga. E os guarda-chuvas das lojas dos chineses partem, deitam-se fora e nem dão para consertar varetas. (Pobre, amolador, solitário, esperando a redenção.)

©helderpacheco2017

De Paranhos

•11/06/2017 • Comentários Desativados em De Paranhos

No ano distante de 1990 – já passou uma eternidade! -, o meu amigo João Fernandes, que iniciava em Serralves a trajectória à conquista de Madrid, telefonou-me para o acompanhar a uma surpresa. Lá fui, e a surpresa era em Paranhos, na bonita moradia ajardinada, do largo fronteiro à Igreja, ainda sem a VCI a estragar tudo.

Ali vivia (e vive) D. Maria Cândida Maia, que nos deu a provar pela primeira vez os doces de Paranhos. Os autênticos. Segundo a receita de uma tia-avó recolhida das doceiras oitocentistas, que os vendiam nas romarias do Burgo. Fórmula e confecção haviam-se diluído no tempo e assim foram recuperadas. Além de uma barrigada de coisas boas, de lá trouxe a receita que passei a escrito.

Sem resultado. Salvo uns tantos amadores das raízes, não sendo eruditos, os doces paranhenses não interessaram a ninguém. Continuaram esquecidos. Até que, em 2015, um grupo bairrista, sob a égide do Rancho Folclórico de Paranhos, criou a Confraria dos Doces da sua terra. O objectivo é divulgar um património da doçaria tradicional, defendendo a especificidade e preservando a autenticidade e qualidade.

Desde aquela tarde inesquecível na antiga “Casa do Poço”, fiquei ougado e freguês dos doces de Paranhos. Estranhos, vernáculos, elementares, sabem aos gostos ancestrais da canela e da erva-doce. E a campo. E a povo. Bem feitos, são uma experiência de diversidade no pronto-a-vestir actual.

E, numa cidade que bate recordes como destino turístico, bem poderiam constituir mais uma oferta cultural no apego à identidade do Porto das aldeias e das Festas. O desafio está em torná-los acessíveis ao público. Fazer deles um atractivo. Uma curiosidade. Uma diferença. Transformá-los noutra marca tripeira «Tão doce como os doces de Paranhos» (como se dizia às raparigas nos jogos amorosos).

©heldwerpacheco2017

Ser Portuense

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Ser Portuense

Como isto do “Melhor Destino Europeu” mexeu com os tripeiros, pus-me, com uns amigos, a meditar sobre o que tem o Porto de especial para atrair as pessoas.

Às de fora não sei. Às de dentro é algo que nasce e vive connosco. Que nos transcende. Íntimo e transmissível. De avós a filhos e a netos. Inexprimível e, porventura, inexplicável. Imponderável. Mas havia quem pusesse a tónica no ambiente, na paisagem. Numa nostálgica tristeza de certo romantismo  persistente (fora de moda e doutro tempo) no carácter dos lugares. No entanto, as opiniões convergiam num ponto: o espírito das pessoas e uma personalidade assente em valores inconfundíveis. Na conjugação de orgulho e simplicidade. No individualismo caldeado por laços solidários. No sentimento do  território herdado e assumido como património essencial. E a generosidade. A irreverência. O coração ao pé da boca. A linguagem sem peias. Além de mais atributos que dariam um dicionário.

Passámos então a esmiuçar o que faz a cidade e surgiram três pérolas: 1.ª Na beira-rio, um pescador da cana aviava tainhas graúdas, amontoadas no cais. Interrogado sobre o modo de frigorificar aquela arroba de peixe e espantado com a pergunta, retorquiu: «Isto é para os gatos do meu bairro. Vão fazer uma festa atestada!»; 2.ª Quando os condutores dos eléctricos anunciavam as zonas, havia um que, na Praça da República, berrava: «Campo: quem quiser pastar que saia!» E várias vezes esteve para levar umas galhetas de passageiros ofendidos; 3.ª Diálogo ouvido num eléctrico do Bonfim entre mulheres que altercavam: «Olha que eu chamo-te uma coisa que nunca foste!» (repetido). «Então chama!» (idem) E a outra chamou: «Honesta!» Foi o bom e o bonito!

Este é o tripeiro que anda por aí. Contra a globalização e a uniformidade. Que o Senhor o fade bem.

©helderpacheco2017

Prolongar a vida

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Prolongar a vida

Andamos preocupados com o envelhecimento. Uns porque, com tantos idosos, quem vai descontar para a Segurança Social? Outros obcecados em manter a forma e ficarem como novos. E há quem não saiba como preencher o tempo que foi ampliando. E os que só falam de doenças. (Como vai, está bem de saúde?) E os que se tornam forretas por desconhecerem até onde os dias esticam. E os transformados em esbanjadores e quem cá ficar que se amanhe. Etc.

Uma revista publicou o estudo sobre “Como viver até aos 100 anos”, mostrando na capa um ancião de 95 anos saltando acrobaticamente para a piscina. E adiantava perspectivas sobre o aumento da longevidade através de várias técnicas (transfusões de sangue, cremes de rejuvenescimento, manipulação de genes e mais novidades). E de actividades (jejuns intermitentes, meditação, andar e correr, restringir calorias, combater o «stress», deitar cedo. E por aí fora).

Passando por reaccionário face à previsão do mundo moderno, direi ter conhecido precursores destes métodos de remoçamento activo: D. Ana Soares (79 anos, modista) percorreu anos a fio a cidade a pé levando obra às clientes; Joaquim Pinto (85 anos, 50 de jornaleiro em Azevedo e Valbom); Rosa Mendonça (82 anos), operária e, depois, estafeta através do Porto; António Pereira (77 anos, com 50 de serralheiro); João Azevedo (81 anos, pedreiro aos 12 e, depois, encadernador); Laura das Neves (79 anos, analfabeta), banheira no Esteiro antes dos 14 e, depois, esmaltadeira; Rosa Machado (81 anos), tecedeira mais de 50 (reformada com 165$00). E poderia juntar muitos mais.

Enfim, estes são os meus atletas preferidos. Conjugam na perfeição o verbo vencer. Não têm P.T., nem frequentaram ginásios, mas venceram a adversidade e prolongaram a vida. Anónimos. Sem direito a saltos em revistas.

©helderpacheco2017

Mas é arvore

•11/06/2017 • Comentários Desativados em Mas é arvore

O título da crónica não é meu. Retirei-o de um escrito do Mestre da língua pátria João de Araújo Correia. Nele, verberava o comportamento dos nossos patrícios relativamente ao desprezo pelas árvores. E considerava-os arboricidas por natureza. Aliás, já no séc. XVIII, François-Marie Arouet, dito Voltaire, teria escrito serem os portugueses os maiores inimigos das árvores. Nem mais nem menos.

Se atendermos ao que se passa em matéria de incêndios florestais, não custa aceitar a classificação pouco abonatória do nosso instinto colectivo. Há, todavia, outros predadores. Insidiosos, anónimos e tão patológicos quanto os incendiários (muitos dos quais não são tolos, mas estúpidos). Os inimigos das árvores escondem-se, não raro, sob a candura da criança, o jovem prafrentex à procura de afirmação. Ou, simplesmente, representam o desprezo e a indiferença pela qualidade da vida comum. Ou a falta de instrução, educação e cultura cívicas.

Vem esta catilinária a propósito da árvore mais desgraçada do Porto. Ou, dizendo melhor, do sítio dela, pois, nos últimos vinte anos, já contei uma dúzia lá plantadas e pouco ou algum tempo depois, partidas. A árvore desgraçada fica na Rua de S.ta Joana Princesa, quase em frente à entrada do Centro Paroquial de Cristo Rei. Zona, como todos sabemos, muito bem, chique e recomendada. Mas não pelo amor àquela árvore, que deve ter mau olhado, feitiço e bruxedo a amaldiçoá-la. Deve excitar os ânimos, concitar a ira, provocar o ódio de sucessivos vândalos e patifes que, através dos anos, porfiam na sua destruição. Repetida e brutal.

Convenhamos: em cidade que se ufana da liberdade, esta nódoa configura que, no final das contas, ser inimigo das árvores não é questão de geografia social. É, sim, de chá em pequeno ou daquilo que se chama civilização.

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A última revolta

•11/06/2017 • Comentários Desativados em A última revolta

Em 3 de Fevereiro de 1927 fez agora 90 anos, mas, com a telenovela da CGD, nem se lembraram, eclodiu no Porto a chamada Revolução de Fevereiro. Visava derrubar a Ditadura Militar instaurada em 28 de Maio de 26. Protagonizaram-na as unidades militares do Burgo e foi comandada pelo General Sousa Dias, além do Comandante Jaime de Morais, do Capitão Sarmento Pimentel e do Tenente João Pereira Carvalho. E personalidades como Jaime Cortesão, Pina de Morais, José Domingues dos Santos e Raul Proença.

A revolta deu origem a um Cerco pelas tropas do Regime, que bombardearam a cidade a partir do Monte da Virgem. Apesar da inferioridade bélica, os revoltosos resistiram, levantando barricadas e trincheiras (a do alto de 31 de Janeiro seria conhecida como “Trincheira da Morte”). E foram esperando adesões, sobretudo da capital, que, até ao dia 4, esteve a pensar se devia aliar-se ao Porto.

Tal vai não vai, permitiu enorme concentração de meios ofensivos sobre o Burgo. Ainda assim, a partir de 5, movimentos populares pressionaram as forças republicanas lisboetas para aderirem à revolta, o que, de forma titubiante, aconteceu a 7. Tarde de mais. O Porto estava vencido, com mais de 100 mortos, 500 feridos e muitas destruições. Sarmento Pimentel designaria esta adesão tardia como a “Revolução do Remorso”.

A marca moral da Revolta do Porto encontra-se numa lápide da Capela de Stª. Catarina, em Lordelo. Diz assim: «Pelas 18 horas do dia 6 de Fevereiro de 1927, por necessidade, foi esta Capela (sacristia) abrigo das forças revolucionárias, não se tocando em qualquer objecto sagrado ou profano, a não ser em duas velas utilizadas para iluminação.» Para que não viessem acusá-los de desrespeito por um lugar sagrado, os republicanos deixaram o testemunho da sua honradez. Sem mácula…

©helderpacheco2017