CULTURA EM MOVIMENTO

•28/10/2018 • Deixe um Comentário

O JN publicou a fotografia de um camião da Maiambiente informando que os veículos da mesma «foram decorados com fotografias vencedoras do World Press Photo 2017». O título  era “Veículos do lixo cheios de Cultura”. E só podemos elogiar a iniciativa.

A notícia levou-me de 1998 a 2002, quando a STCP lançou um projecto de promoção cultural através de painéis nas traseiras dos autocarros da sua frota. Sob o título “Rectaguardas Temáticas” foram seleccionadas personalidades e instituições, num total de 100, num objectivo chamado “Cultura em Movimento”.

Levar a informação cultural às áreas socialmente deprimidas da cidade, foi o desafio. E, durante quatro anos, para admiração, prazer e conhecimento de milhares de pessoas, dezenas de autocarros percorreram as ruas levando atrás o perfume da cultura tornado realidade pela empresa “Novo Design”.

Por isso, em 2000, a União Europeia, através do seu Conselho dos Municípios e Regiões, distinguiu o Porto com o “Prémio Europeu do Transporte Público”, na categoria “Acesso à Cultura” (entre dezenas de candidatos, com a França e a Alemanha à frente). Tudo parecia correr na perfeição até que os painéis dos autocarros, que fizeram a admiração da Europa, começaram a aparecer grafitados pelos patifes a quem incomodavam. Patifes hoje bem instalados na vida, que abandalhavam a cidade por banditismo. E perante o ataque desses terroristas de meia tigela não valia mais a pena gastar milhares de euros a recompor os painéis. O sonho acabou nas mãos dos malfeitores do spray. Atenção, pois, à Maiambiente, a semente deles continua por aí.

©helderpacheco2018

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ADEUS JOSÉ

•28/10/2018 • Deixe um Comentário

Morreu o meu amigo José López de Los Mozos, professor, investigador, etnógrafo, historiador. Autor de “Guadalajara, Fiesta e Tradición”, uma enciclopédia monumental. Escreveu centenas de ensaios nas revistas Wad-al-Hayara e “de Folclore” e foi director dos “Cuadernos de Etnologia de Guadalajara”. Editou recentemente “Historias y Tradiciones Alcarreñas” e deixa obra notável sobre a Espanha profunda.

Admirador de Portugal – que não se cansava de elogiar – e do Burgo, comentava o que ia sabendo daqui: «Foi muito bom que tenham escolhido o Porto como melhor destino europeu. Em boa hora. Mas, atenção que isso arrasta um grande perigo. A avalancha turística é como o cavalo de Átila e por onde passa a erva não torna a crescer.

Há que medir bem que turista é uma coisa e viajante é outra e convém separá-los. O turista vai ao Porto como pode ir a Bombaim. Não lhe importa o lugar. Levam-no e conforma-se com isso. O viajante é diferente. Escolhe onde quer ir e o que lhe interessa. Viaja para conhecer e desfrutar. São gente que quer ver castelos, muralhas, igrejas, museus, etc., e deixar-se levar pelos gostos gastronómicos. As comidas dos ricos e dos pobres, caldo verde, fanecas e bifanas. Boas carnes e sobremesas generosas. E o café.» E rematava: «Bem vindos os viajantes e vão com Deus os turistas!»

O José ajudou-me com documentação espanhola sobre vários assuntos, sempre generoso e por pura amizade. Estes tempos têm sido uma tragédia: depois da Sílvia, partiram o Albano, o Vasco, o Zé Ferrugem, o Fernando Fernandes e agora o José. O meu mundo está a ficar cada vez mais pequeno.

©helderpacheco2018

AINDA OS MEUS COMBOIOS

•28/10/2018 • 1 Comentário

Mas eram outros. Da infância que nos marca, com doçura, ou nos amarfanha para sempre. A minha abarcou as duas, mas do lado mais doce ficaram os comboios. Para a praia.

Nessa altura, meu pai, num ataque de suburbanismo (e para aferroar meu avô, portuense empedernido, que jamais lhe perdoou o despautério) resolveu mudar-se para Gaia. Era quase Porto, na Rua do Pilar, com vista sobre o Burgo, da Ponte até ao Palácio.

A partir daí tornei-me praiano duplo. Andar de eléctrico e beber mazagrans no Pavilhão de Carreiros era ao Sábado, com meu avô. Praia a sério com sol, banho de mar, buracos na areia disfarçados com jornais e espreitar os casais atrás das dunas, era Miramar, durante a semana. Apanhávamos o «trama» em General Torres. Sempre à tabela, daqueles que abriam as portas para fora e lá íamos, mães e catraiada, enquanto os «chefes de família» mourejavam.

Miramar tinha um apeadeiro que parecia o Portugal dos Pequeninos. Um encanto e o mais bonito até Espinho. Pintado de cor-de-rosa, impecável, com empregado e bilheteira. Para chegar à praia, ia-se por ruas que pareciam as «City Beautiful» americanas, com as vivendas que lá havia. Na época, a costa, entre Francelos e a Granja, era incomparável. Hoje, em alguns sítios, transformou-se num pesadelo imobiliário.

(Passei há tempos no apeadeiro de Miramar. As paredes estavam grafitadas. O abandono era total. O arranjo e a qualidade converteram-se em sítio de terroristas do Daesh de cá, tão bandalhos como os outros.) Do comboio para Miramar resta-me a recordação da doçura daqueles dias de praia. Ficou alguma coisa.

©helderpacheco2018

EXORTAÇÃO AOS ENGANADOS/AS

•28/10/2018 • Deixe um Comentário

Em 16.12.2017 publiquei uma crónica intitulada INFARMED. Como sei com quem lido, punha em causa a sua vinda para a Invicta e dizia que podiam ficar com ele. Não tinha dúvidas: era pura sessão de ilusionismo para entreter os suburbanos (designação utilizada por um membro da Corte, a propósito de um político portuense).

Sucede que o Porto não pediu nada aos donos disto tudo. Queria, sim, o organismo internacional que os aldrabões do Brexit perderam. Ninguém pediu, mas as reacções não tardaram. Valeu tudo. Como escreveu o imorredoiro Firmino Pereira «Lisboa considerava o Porto – terra de broeiros. E sempre que algum movimento se realizava, ou político ou social, logo a nobre cidade de Ulysses, ilustrando os seus lustrosos pergaminhos, principiava a rosnar, amuada e agressiva (…)» Foi o caso.

Que me perdoem os meus amigos lisboetas, que tanto prezo, mas para que compreendam que não gosto de ser aldrabado, cito-lhes novamente Firmino Pereira: «A Arcada, o velho ponto de reunião da malandrice nacional de todos os tempos, rugia, vermelha de raiva, quando o Porto, do alto dos seus tamancos e agitando a carapuça, pedia coisas, exigia reformas (…)»

Portanto, não vale a pena perder mais tempo com o INFARMED. Fiquem com ele e com tudo quanto, à custa dos factores da verdadeira descentralização, continuam a concentrar na capital instituições e recursos que uma democracia decente já deveria ter instalado país além.

Ó donzelas traídas pelo Terreiro do Paço não chorem mais. Em matéria de virgindade há muito fomos enganados. O INFARMED foi apenas mais um episódio.

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OS MEUS COMBOIOS

•28/10/2018 • Deixe um Comentário

Como funcionário público, deslocava-me do Porto, um dia ou mais. E utilizava o comboio. Tinha de estar em Lisboa às segundas, às 9 h, e havia um «correio» que saía de Campanhã à meia-noite, com carruagens-cama individuais. Um sossego. Fresquinhos e barbeados, às 7 chegávamos à Capital.

Se me calhava o Douro delirava. Fiz a linha do Corgo, para Vila Real, Vidago, Vila Pouca e, a partir da Régua, as voltas e reviravoltas da paisagem eram a maravilha. E no Outono a absoluta beleza.

Cheguei ao Arco de Baúlhe pela linha do Tâmega. Deslumbramento completo. E as viagens ao Tua foram incontáveis. Ir ao céu e regressar era viajar de Espinho a Viseu pelo Vale do Vouga. A perfeição. Certa ocasião fui, num Julho tórrido, até Bragança. Sozinho na 1.ª classe, para sobreviver ao calor, abri as janelas todas e as cortinas esvoaçavam na tarde.

Conheci o paraíso e as realidades. Uma é que às sete da manhã (em S. Bento) havia um formigueiro de gente que ia trabalhar. A gente cansada das madrugadas, negando a ideia daquele energúmeno, segundo o qual «os portugueses eram só o vinho e gajas». Outra foi ver quem viajava na 2.ª classe: alunos das escolas, idosos que iam aos médicos, camponeses, mulheres das aldeias, caixeiros, compradores dos dias de feira. Os comboios eram um instrumento do viver desse país esquecido chamado interior.

E por isso considero criminoso o desinvestimento no C.º de Ferro. Os nossos impostos serviram para mascarar as falcatruas bancárias à sombra do Terreiro do Paço e a destruição do C.º de Ferro foi o colapso de um belo país. A morte de uma pátria de regiões.

©helderpacheco2018

ELOGIOS E ILUSÕES

•28/10/2018 • Deixe um Comentário

O mundo fala do Porto. Sempre falou, muito antes do «boom» actual. Já relatos dos séculos XVIII, XIX e XX o faziam. Em 5.4.1904, o “Comércio do Porto” anunciava “Tours to Spain and Portugal” e «As Companhias “The Pacific Steam Navigation”, “The Royal Mail Steam Packet” e “The Orient Pacific Line” publicaram um folheto das excursões do Verão.» Do Porto diz: «É uma velha cidade comercial, a de situação mais bela na Península (…) a 5 milhas do porto de Leixões (já havia cruzeiros ali aportando!), ao qual está ligada por americano eléctrico.» E: «O anfiteatro de casario volta-se para o pitoresco rio e terras arborizadas. Os belos passeios do grande Jardim da Cordoaria e do Palácio de Cristal dão-nos um deslumbrante panorama (…) As ruas são amplas e formosas, as praças e o mercado cheios de vida, etc.»

Em 27.1.1926, o jornalista Charles de Caters (viajando de vapor), dedicava ao Porto, na revista “Sciences et Voyages”, um artigo «Encantado com a paisagem e o pitoresco da cidade». Mas critica não existir, no Douro, cais acostável como na Europa. E a descarga fazia-se com carros de bois e o «trabalho hercúleo das mulheres». Acha «banal» o Palácio, mas exalta «os magníficos jardins e o golpe de vista soberbo sobre o Douro».

No entanto, amável, não deixava de aconselhar: «Visitai connôsco a cidade do Porto». A Invicta era, então, uma cidade de pobreza, com as taxas de mortalidade mais altas da Europa e milhares vivendo em condições miseráveis. Mas ainda assim admirada. É por isso que devemos manter um olhar isento sobre a realidade. Porque nem tudo são camélias…

©helderpacheco2018

O TÉDIO SUBTERRÂNEO

•28/10/2018 • Deixe um Comentário

Começo por afirmar que o abaixo dito nada tem a ver com o apreço pela obra do Arq. Souto Moura, e o convencimento de que algumas estações do metro do Porto são, arquitectónica e formalmente, excelentes exemplos do novo património da cidade. O meu problema é outro: não gosto de paredes vazias.

Assim, a primeira vez que entrei numa estação do Metro, já não me lembro qual, tive a sensação de ver uma cozinha. Com as paredes de azulejo nu. Tudo frio, asséptico e incolor. Também podia ser quarto de banho, como muitas moradias, mas esses eram coloridos e no Metro nem pinta. Monocórdico. Minimalista. Recordo-me também que as letras dos nomes das estações eram tão pequenas que tiveram de as ampliar para a malta saber onde estava. Enfim, pormenores.

De maneira que, perante a nudez das nossas estações, comecei a ansiar ver as paredes cheias de anúncios daquela marca de bebidas cujo defeito é ser vermelha mas animaria extraordinariamente os ambientes. Os Santos ouviram-me e os anúncios começaram a tapar o minimalismo e a alegrar os espaços. É por isso que não posso deixar de aplaudir a ideia dos 40 artistas que vão ilustrar – voluntária e gentilmente – umas tantas estações. É pena serem as que já não precisam. Deviam ir para o Heroísmo, Combatentes, Dragão, etc. Alegrarem aqueles espaços tão tristes (que, no Dragão, são ainda mais quando o Porto perde e a gente só vê vazio à nossa volta). “Arte nas estações do Metro ajuda a escapar à rotina”, titulava o artigo do JN . É isso: o Metro do Porto é um exercício de rotina cromática. Venham mais anúncios, de todas as cores.

©helderpacheco2018