CHI ATANGA

•04/07/2018 • Deixe um Comentário

A revista inglesa “Courier” (dedicada à divulgação de “histórias de negócios modernos”) traz o Porto à ribalta. Pela mão da artista plástica e jornalista Berri Blue, que trocou Dublin pela Invicta («É a cidade mais criativamente estimulante que já experimentei», Público, 2.11.17), mostra uma faceta do Burgo que nos deixa perplexos.

E esperançados. Porque noticia os “novos” portuenses que, vindos de longes terras, não abrem lojas dos trezentos, mas trazem categoria e afirmam a qualificação da cidade. Berri Blue escolheu como sua «Favorita» uma marca de pijamas sediada no Porto, intitulada “Walls of Benin”. O seu fundador utiliza fibra natural com a qual produz um tecido de alta resistência com a macieza da seda. Chama-se Chi Atanga e escolheu o título, em homenagem às muralhas do Reino de Benin, destruídas pelos britânicos em 1897.

Na concepção dos pijamas Chi utiliza desenhos tradicionais africanos, considerados fascinantes. E exporta os tecidos e respectivos padrões do Porto para produção final no Quénia e Ruanda, por razões éticas: compensar as suas raízes criando emprego em África. Assim, desde 2015, este pacato e anónimo cidadão, no silêncio da sua actividade conquistou prestígio mundial. É de gente desta que o Porto precisa e tem de receber de braços abertos. Não vivemos tempos para a pasmaceira do «aquário dos imbecis» que, encostados nas Cardosas, se limitavam ao bota abaixo e à conquista das caixeiras. Venham, portanto, os Chis que, como este, ajudem a tornar o Burgo uma cidade mais criativa na conjugação da tradição com a modernidade. Internacionalizando-se.

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DO RENASCIMENTO

•04/07/2018 • Deixe um Comentário

Adoptando uma frase de Lawrence Durrell, a ideia que mantemos do Porto é a da «perenidade das coisas»: património, herança e tradição, através de coincidências primordiais que se transformam em persistência da memória. E, nesses momentos, o Porto transforma-se em sedução.

Sedução que permanece no entardecer da Ribeira sob os Arcos; nas varandas floridas com begónias e sardinheiras colorindo, aqui e ali, as ruas de S. Nicolau e da Vitória de contrastes com a pedra granítica que os séculos amareleceram; na geometria da ponte da Arrábida, asa recortando-se nas neblinas mareiras que sobem da barra. Na intimidade envolvente da vilazinha, em redor do adro de Nevogilde, ou da matriz de S. João da Foz, encimada, no seu nicho beneditino, pelo Baptista padroeiro. Nas varandas do muro dos Bacalhoeiros; no homem-estátua, em Santa Catarina (a nova estética da pobreza); nos vultos que espreitam por detrás das cortinas rendadas, ou assomam, a tomar o fresco, às janelas de Miragaia e S. Francisco; no voo das gaivotas que pousam nos pináculos de S. João Novo, do Corpo Santo ou da Vitória. No perfil da Torre dos Clérigos (vista, quem desce 31 de Janeiro) no crepúsculo; no silêncio irreal do Passeio Alegre; no encanto rural no Beco de Carreiras; nas canseiras dos últimos pescadores da Cantareira…

Ah! Este Porto, imutável na sua substância essencial, sob a aparência da instabilidade e da inconstância, permanece. Resiste. E, para delícia do nosso olhar e alimento das nossas ilusões de que as cidades são eternas, renasce, transformado noutra realidade (ou na verdadeira realidade?).

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1962 Lordelo do Ouro circuito citadino

•04/07/2018 • Comentários Desativados em 1962 Lordelo do Ouro circuito citadino

1962 Lordelo do Ouro
Circuito citadino, criado para o efeito nos arruamentos da zona de Lordelo do Ouro, que se realizaram entre 1962 e 1966 e que foram as últimas corridas de velocidade realizadas na cidade até ao fim do século XX.

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•10/06/2018 • Comentários Desativados em

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•10/06/2018 • Comentários Desativados em

JL 25 Abr '18 - Apreciação de livro de H Pacheco (começo)JL 25 Abr '18 - Apreciação de livro de H Pacheco (final)

DIZER BEM

•10/06/2018 • Deixe um Comentário

Em 24 de Agosto de 1820 eclodiu no Porto a mais radical revolução ocorrida em Portugal. Sem um tiro mudou o país. Foi preparada pelo Sinédrio, sociedade secreta, onde se destacavam Fernandes Tomás, Ferreira Borges e outros. O seu objectivo era salvar o país da ruína e regenerá-lo (daí o nome de Regeneração).

No entanto, enquanto o Porto se preparava para avançar, Lisboa fazia de conta. Mas uma revolução saída da sociedade civil necessitava de apoio militar. Encontrou-o nos Coronéis Sepúlveda e Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira, heróis da luta contra os franceses e responsáveis pelo Conselho Militar da acção.

Cabreira seria Vice-Presidente da Junta do Governo Supremo do Reino, saído da revolução. No Campo de Santo Ovídio, dirigiu-se às tropas: «Soldados! Uma só vontade nos une. Caminhemos à salvação da pátria. Não há males que Portugal não sofra, não há sofrimento que nos portugueses não esteja apurado. Os portugueses, pedem o nosso auxílio; eles querem a liberdade sagrada da lei». Falecido em 1833, Cabreira não assistiu à vitória na Guerra Civil. Em 1864 um descendente adquiriu no Prado do Repouso o terreno destinado ao jazigo para os seus restos mortais.

Há tempos um amigo avisou-me do abandono e degradação em que se encontrava o túmulo desta figura central da implantação do liberalismo. A vergonha deu-me para telefonar a quem de direito alertando para o facto. Garantiu-me que ia tomar o caso a peito. E tomou.

Recebi agora a comprovação de que o jazigo do (já) General Cabreira estava restaurado. Com dignidade. Só posso aplaudir e insistir que os cemitérios românticos (como o Prado do Repouso) constituem recursos culturais para quem nos visita que aprecie a arte de tais lugares. Assim a Câmara prossiga a obra de regeneração dos seus cemitérios emblemáticos.

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UMA VEZ MAIS

•10/06/2018 • 1 Comentário

Um amigo meu (cito Teixeira Gomes) «pessoa delicada e culta e muito amigo das coisas da sua terra», com a vantagem de correr mundo, escreveu-me sobre o asssunto de que muito se fala: o excesso de turismo. Embora centrada num universo que não o do Porto, transcrevo extractos da sua carta: «Estive em trabalho em Hong Kong, cidade de que muito gosto (…) Apesar de já lá ter estado uma dúzia de vezes só agora me apercebi do tráfego de turismo. Eu sabia que era grande. Mas não de 60 milhões, em 2018! Sim, leu bem. Hong Kong tem cinco vezes o tamanho do Porto (250 km2x45 km2) e 7.8 milhões de habitantes. Não há confusões, não há engarrafamentos. Tudo flui.»

Isto é de outra galáxia, mas a seguir o escrito pertence à escala do Burgo. E pode ser útil a alguém: «Há dias conheci um vereador da Câmara de Bordéus. Na sua área metropolitana deverá ter menos de 1 200 000 habitantes (menor do que a nossa). O ano passado tiveram cinco vezes mais turistas que o Porto. Não se queixam, ninguém se queixa. Aliás estão a ver como aumentar esse número e arranjar forma de que fiquem mais uma noite. Dizem que, com isso, recuperam a cidade, criam mais empresas e mais emprego. A cidade está mais alegre, tem menos crime, menos gente deprimida e menos gente doente. E helás! O vinho Bordeaux vai-se vendendo!»

Aquilo que eu afianço é que não temos turismo a mais mas Porto a menos. No seu território há dezenas de locais, assuntos, instituições que, impulsionados como atractivos de qualidade, aumentariam a sedução do Burgo. E remata o meu amigo: «Infelizmente, na minha cidade, os ignorantes ainda não repararam que a “avalancha de turistas” começa na Ponte Luís I, chega a Massarelos e com muita dificuldade sobe até Gonçalo Cristóvão. Ou seja: está tudo por fazer.» E tirou-me as palavras da boca.

©helderpacheco2018